Os catadores.




Cata grão,
Cata papel,
Cata caixão.

Cataram os sonhos
Que um dia eu deixei pelo chão.
Cataram até o pedaço de madeira que eu fiz de pião.

Cataram as bandeiras,
Cataram os ideais e jogaram na fogueira.
Só não cataram os sujeitos que vivem por aqui
Pedindo voto a semana inteira.

Cataram tudo que tinha pela frente,
Cataram a esperança,
Não pouparam nem a fé dessa gente.

No cataclismo de uma vida sem luxo,
Dia após dia,
Eles vão catando a infância de mais um inocente;
Mais tarde catarão sua liberdade
Alegando que nesse país quem cata as coisas dos outros
Não podem viver impunemente.

Enquanto isso...
Os catadores de sonhos
Continuam agindo livremente.

Bruno Rico.

Garatujas. Parte 1.


Pessoas com uma essência altamente crítica geralmente possuem pouca fé, são deístas ou até mesmo atéias. O ceticismo característico de pessoas críticas (e eu me enquadro nisso) caminha em desencontro aos dogmas impostos pela sociedade. Uma pessoa que tem o ceticismo correndo nas veias simplesmente questiona tudo que vê e ouve, e em um mundo de pessoas enganadoras, tendenciosas e sem valores morais nenhum, isso é bom.
Só que a maioria dos fantoches presentes nesse mundo nunca compreenderá isso, até pelo fato deles já estarem condicionados a uma verdade absoluta que já foi imposta desde a infância.
O pior é que a maioria dessas pessoas nesse exato momento, ou está de frente para uma TV, achando que tudo é verdade; ou está em uma igreja, louvando e adorando a Deus, que não deve entender porque quando essa mesma pessoa sai da igreja ela não trata o próximo com igualdade e respeito (e quando digo próximo estou querendo dizer qualquer tipo de pessoa).
Enfim, esse é o mundo que me é exposto quando eu abro a janela ao amanhecer. Todo dia eu sou obrigado a ver e conviver com um mar de peixes cegos que sempre morde o mesmo anzol.
É tenso!

Carta de Anacleto.



Meu caro Malaquias,
Não estranhe tal escrito,
Não estranhe nada,
Apenas leia,
É só isso que lhe peço.

Já lhe adianto que não estou bem – acho que é notável.
A família continua desunida,
Às vezes penso ser melhor
Confidenciar-me a você
Do que a um irmão de sangue.

Minha neta já cresceu,
Cresceu tanto
Que até uma bisneta já me deu.

O tempo passa sem piedade.
Passa no compasso do descompasso
Chegando a me causar embaraço.
É tudo tão rápido
Que me esqueci até das
Vaidades que tanto cultuava
Em minha mocidade.
O futuro que outrora discutíamos
Já se tornou passado há décadas.

Descobri também que de nada adiantou-me
Guardar segredos e viver cheio de medos.
Os medos me deixaram amuado e acuado,
Enquanto os segredos me deixaram
Profundamente amargurados.
Tais sentimentos só resultaram
Em mais rugas em meu rosto.

Sinto saudades do tempo
Que me chamavam de moço,
Hoje só ouço senhor ou vovô.

Ah! Como era bom caminhar pela praça,
Paquerar uma bela moça,
E por fim beijá-la a boca
Desvendando os segredos de sua alma.

Confesso que ando muito
Saudosista e melancólico,
Por isso resolvi escrever
Esta carta para saber como anda
Meu velho inimigo de longa data,
Já que amigos vivos não tenho mais.

Ass. Anacleto Furtado. 

Bruno Rico.

Isso é Patativa, isso é Brasil.

Simplesmente um gênio.




Príncipes anfíbios.


É, o cavalo branco pode estar empoeirado
De tanto aparecer e não ser visto,
E o cinza do cansaço pode afugentar
As donzelas que acham que tudo deve ser perfeito.

Já o cavaleiro, segue cavalgando solitário,
Em um mundo de magia e utopia
Rumo a um caminho sinuoso,
Que esbarra nas exigências descabidas
De moçoilas enfraquecidas pelo próprio desejo,
Que parece incansável e intragável.

Tudo funciona em forma de cobrança,
Mas quase ninguém cobra a si próprio.
Haja lamentos:
O meu príncipe não veio!
Ele não existe!
Vou viver sozinha!
Ninguém presta!
Oh vida, oh céus!

E onde ficam as perguntas?
Do tipo:
Por que eu não me preparo adequadamente para ele?
Por que quando ele aparece sorrateiro,
Com uma forma meio distorcida da que sonhei,
Eu o ignoro feito um menino de rua?
Por que eu não sonho com coisas possíveis?
Por que eu não sonho com o que realmente mereço?
Aliás, será que eu mereço isso tudo mesmo que estou querendo?

A verdade mesmo, é que os corcéis brancos
Viraram pangarés cinzas,
Daqueles sem brilho algum.
E os escassos príncipes voltaram a ser sapos,
Talvez por fadiga.
Mas ainda existem anfíbios que são capazes
De transformar um simples brejo
Em um esplêndido palácio de portas abertas para o amor.  

Mas as moçoilas deverão correr,
Pois até mesmo meros sapos criativos e
Sedentos de afeto, podem se enfurecer
Com tanta indiferença.
Daí, a vaca vai pro brejo!

Bruno Rico.