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A culpa é minha mesmo.

Foto: Luciano Andrade.


Meu nome é Maycon, tenho 13 anos de idade. Minha mãe era muito fã do Michael Jackson, mas ela não sabia ao certo como escrevia o nome dele, daí na hora de registrar o meu ficou diferente mesmo.
Hoje já acordei com a molecadinha pedindo pra eu ficar ligeiro, pois agora quem é dimenor também pode ir preso. Eu só tenho 13, mas tô ligado que daqui a pouco eles abaixam até a minha idade, ou eu chego até a idade que eles querem, mas uma hora a gente vai se encontrar, isso é certo.
Pra falar a verdade, se eu for preso a culpa vai ser minha mesmo.
Tem gente que fala que tem que ter educação. Mas eu tive!
Quando eu ainda tinha casa, eu estudava, ia todos os dias pra escola, eu tinha uma tia que até dormia nas aulas. A outra, a tia Mônica, já chegou a falar que iria fingir que estava dando aula, pois estava há meses sem receber pagamento, acho que era uma parada de greve que estava rolando, mas se ela entrasse nessa tal greve, ia sair ainda mais prejudicada.
Na hora da merenda era legal, a gente tinha que roubar o lanche dos mais lerdos, pois não tinha merenda pra todo mundo, e como eu estudava de manhã, e em casa nem sempre tinha pão, eu ficava cheio de fome durante toda a aula, nem conseguia me concentrar muito por causa disso, por isso que eu roubava lanche. Analisando agora, eu acho que foi na escola que eu aprendi a roubar. É, deve ter sido.
No final do ano dava tudo certo, eu me sentia inteligente pra caramba, pois sempre passava de ano, depois é que fiquei sabendo que a minha escola não reprovava. Mas educação eu tive, isso não é desculpa.
Tem outra galera que fala que a culpa dessa molecadinha estar no crime é por causa da família, ou melhor, pela falta dela. Mas também não consigo entender isso, pois eu também tive família.
Minha mãe me criou sozinha, tudo bem que ela saía pra trabalhar bem cedinho - ainda no escuro - e voltava pra casa já bem de noite, e boa parte do meu dia eu ficava na rua. Mas minha mãe era carinhosa, chegava cansada e ainda conseguia me dar atenção, perguntava como eu tinha ido na escola. Às vezes ela dormia sentada, ou até mesmo fazendo a marmita para levar no dia seguinte, eu já cansei de levá-la pra cama e terminar sozinho o que ela estava fazendo, e ela sempre dizia que eu era um filho exemplar por causa disso. A gente não se via muito, mas éramos uma família, até porque, aprendi que família é mãe com filho, com todos os meus amigos era assim. Fiquei sabendo que família é outra coisa no bairro dos bacanas, mas como nunca fui lá, só posso falar das famílias que vi.
Hoje eu não moro mais com a minha mãe e nem estudo, a gente morava em um barraco de invasão, e do nada a prefeitura chegou lá derrubando nossa casa, teve um policial que deu até um tapa na cara da minha mãe só porque ela queria pegar uns documentos, nunca vou me esquecer dessa cena. Só sei que no dia a gente ficou sem saber o que fazer, minha mãe foi morar de favor na casa de uma conhecida, mas lá não tinha espaço pra dois, daí eu fugi, pois sabia que minha mãe ia pedir pra eu ficar no lugar dela, mas eu não quis isso, eu me viro muito melhor sozinho do que ela, sou novo ainda, por isso saí fora; vim escondido mesmo, até hoje minha mãe não sabe de mim, sinto falta dela, mas qualquer dia eu volto.
É por isso que não aceito quando dizem que a culpa do crime é da falta de educação ou da falta de família, eu tive os dois, e ainda tenho, pois a molecadinha aqui da praça é a minha família hoje, a gente se protege, cuida um do outro, ri junto, passa veneno junto, passa fome junto, apanha junto, tudo é junto, e pelo que eu sei essa é a essência de uma família, estar sempre junto.
Vou fazer de tudo pra não ser preso, mas se um dia isso acontecer, a culpa vai ser minha mesmo, pois tive família e tive educação.


Bruno Rico. 

O sofá maldito de Shah Jahan.


Ele controla o mundo do sofá da sala, e que sala! Equipada com uma acústica de som double surround, todas as caixas embutidas em um acabamento de rebaixamento de gesso; a mesa de centro possui um vidro temperado que não fala português, assim como todas as bebidas que ficam expostas para as visitas, que sempre surgem para puxar seu saco, pois gente que tem muito dinheiro é isso aí, tem tanto baba-ovo quanto dinheiro na Suíça.
A decoração da sala é no estilo do mais puro requinte indiano, o sujeito sentado no sofá quis criar um Taj Mahal dentro de casa, e conseguiu. Aliás, ele se sente o próprio imperador Shah Jahan, pois só sabe dar ordens para os seus empregados/servos; a expressão "por favor" não existe em seu vocabulário, mas isso é normal para quem já nasceu dando ordem nas pessoas.
Por falar nisso... O nome Shah Jahan quer dizer rei do mundo, em persa, e não existe alcunha melhor para eu chamar o meu personagem central, até porque ele não possui nome, não possui face, só possui súditos, poderes e status, e no Brasil isso já é mais do que suficiente.
Sentado no sofá maldito ele bebe o seu whisky  envelhecido por décadas, e há décadas é Shah Jahan que dá as cartas do jogo, o tabuleiro, por sinal, fica na sua sala, ao lado do sofá.
Shah Jahan é o cara que manda prender e manda soltar, é ele que diz se determinado projeto de lei vai ser aprovado ou não, é ele que escolhe o político que irá lhe representar, a emissora de TV que irá propagar a sua filosofia, é ele que decreta quais serão as principais notícias da mídia; enfim, ele manda em tudo! E é por isso mesmo que a sua diversão favorita é sentar-se em seu sofá, ligar sua TV - que ocupa toda a parede da sala - e rir, apenas rir. Ah! Um dos seus capítulos favoritos desse reality show macabro é quando ele vê a população dizendo que o presidente do país é que manda em tudo, ele ri de ter cólicas.
Shah Jahan também acha graça da morosidade do povo, que diariamente luta entre si por conta de seus mandos e desmandos, ele já cansou de dizer que irá morrer sem entender porque as pessoas ainda não se conscientizaram que estão sendo manipuladas desde o momento que acordam até o momento em que vão dormir, depois de um dia extremamente desgastante e humilhante. Ele sabe que seu império poderá ruir apenas com um assopro, caso todos os cidadãos resolvam realmente se unir em prol de um objetivo comum, mas esse é o grande problema: Shah Jahan conseguiu com que as pessoas ficassem extremamente individualistas, a maioria só pensa em causa própria, e povo desunido é sinônimo de povo fraco, e povo fraco garante o império do homem sem face e sem nome. Por conta disso, ele sabe que o seu império irá durar por infinitas gerações, certamente seus filhos e netos terão muito mais poder do que ele tem hoje.
O mais irônico de tudo isso é que Shah Jahan sabe que quando sair de seu Taj Mahal e for para a rua, a população irá realmente tratá-lo como um verdadeiro imperador, afinal, ele tem cara de homem de família (a tradicional brasileira), anda bem arrumado, é bem asseado, fala bem, é caucasiano, é cristão, não está envolvido em escândalos, possui um sorriso cintilante que irradia luz por onde passa. Definitivamente, não há porque desconfiar de um ser como este. 

Bruno Rico.

A doença do negro moreno.


Jorge havia passado a noite toda tossindo mais do que o normal, essa tosse chata já persistia por mais de duas semanas, só que nesta última noite a tosse não deu trégua, e o pobre coitado sequer conseguiu dormir. Mas sem plano de saúde, com muito trabalho por fazer na obra, e com um patrão nada maleável, ele resolveu ir remediando o problema, e remédio mesmo que é bom, nada.
Pela manhã ele deixou seus três filhos com a vizinha - que também era sua tia-avó - e partiu com a esposa Letícia para o posto médico mais perto do morro em que morava.
Jorge residia no pico do morro, praticamente na última casa, se é que podemos chamar de casa um cômodo dividido por cortinas, com apenas uma janela, telhas quebradas e esgoto correndo bem na porta.
Apesar de o ditado popular dizer que “pra descer todo santo ajuda”, até a descida da colina estava sendo tortuosa para o cansado Jorge. A cada dez degraus de escada, vinha uma tosse. Quando finalmente chegou ao asfalto, as tosses diminuíram, mas ele ainda se sentia muito fraco, e sequer pôde repousar sentado no ônibus, já que o mesmo estava completamente lotado às oito da manhã. Algumas pessoas até repararam que ele estava muito mal, mas na dúvida, preferiram permanecer sentadas.
Quando finalmente chegou ao posto médico com sua esposa, um milagre aconteceu logo de cara: o local estava vazio! Jorge chegou até a se animar, afinal de contas, aquele lugar vivia mais lotado que banco em dia de pagamento, e isso também era um fator que sempre lhe desencorajava a procurar um médico.
Ao se apresentar na enfermaria para fazer a ficha, a enfermeira foi logo perguntando os dados:
- Nome?
- Jorge Domingues da Silva.
- Idade?
- Vinte e sete.
- Cor?
- Moreno.
- Não, meu querido. No Brasil você só pode se declarar dentro de cinco cores, que são branco, pardo, negro, amarelo e índio.
- Então bota amarelo. – respondeu o enfático Jorge.
Nesse momento, a enfermeira que atendia Jorge, uma loira – dessas de pentelho preto – olhou para a outra enfermeira que estava sentada ao seu lado, e ambas fizeram aquela cara de “esse negão está de sacanagem”. A loira respirou fundo, olhou bem para a face do Jorge e disse:
- Você é japonês por acaso, pra se declarar amarelo?
Jorge olhou para sua esposa e riu, mas foi um riso de pessoa sem graça, que não tem o que fazer e acaba rindo para não ficar ainda mais sem jeito.
- Então é pardo, né. – disse Jorge, mais perguntando do que afirmando.
A enfermeira então marcou pardo na ficha, mesmo a contragosto, até porque Jorge era um negro de 1,90m de altura, a cor da sua pele era a mais escura possível, então o termo pardo soava como um grande eufemismo para todos que ali estavam. Mas como a enfermeira loira parecia estar com pressa, ela não quis se alongar nessas questões, até porque percebeu que seria em vão. E assim ela continuou com a ficha:
- Você faz uso de algum tipo de droga lícita ou ilícita?
Depois de dar uma pausa, Jorge respondeu:
- Sim, fumo maconha.
Nesse momento, a esposa Letícia fez cara feia e deu uma cutucada nele, mas foi logo advertida.
- Ué, mulher, tem que falar, a moça perguntou.
- Pois é, tem que falar mesmo, pois tem remédio que não pode fazer associação, se o paciente não falar e tomar o medicamente errado, pode até morrer. – disse a enfermeira loira, fazendo caras e bocas para a esposa de Jorge.
Por fim, a ficha foi preenchida e as enfermeiras pediram para que o paciente aguardasse, pois logo seria chamado.
Enquanto de um lado Jorge cochichava sobre as enfermeiras com a esposa, de outro lado as enfermeiras cochichavam sobre Jorge.
Ao ser chamado no consultório, Jorge foi fitado da cabeça aos pés pelas enfermeiras; sua esposa fez cara de nojo, mas Jorge nem viu nada, estava focado, queria apenas ser atendido e ser curado daquela tosse infernal.
Depois de sair do consultório ele foi encaminhado até a radiografia, a pneumologista havia pedido uma chapa do tórax.
Horas depois, a mesma enfermeira que havia atendido Jorge pela manhã chegou com a radiografia dele nas mãos, mostrou para a colega e disse:
- Olha amiga, coitado do negro moreno, está com tuberculose.
- Ih, não vai mais poder fumar maconha – completou a amiga.
Após pegar o resultado e ganhar uma sacola cheia de antibióticos, Jorge foi embora desolado. Não poderia trabalhar tão cedo, não poderia fumar sua maconha pelo menos por seis meses, porém, ao chegar à porta de casa teria que ser recebido pelo esgoto que já era praticamente da família; e olha que a doutora pediu para que ele mantivesse uma boa higiene. Pobre Jorge.

Bruno Rico. 

O macaco da vez.




Celino é mais um típico cidadão comum brasileiro. Pele negra, dois filhos, esposa dedicada, contas acumuladas, um carro popular na garagem, casa na beira da favela, tem um curso técnico que lhe garante um emprego mediano, e uns bicos nos finais de semana complementam a sua renda, afinal de contas, criança gasta muito, e os seus dois filhos fazem com que ele se lembre disso todos os dias.
Celino trabalha fazendo reparos elétricos, e neste último domingo ele foi à casa de uma cliente particular para fazer alguns serviços. Tudo muito bom, tudo muito bem, dinheiro na mão, são sete e meia da noite, se ele correr ainda consegue chegar em casa para se reunir com a família, pedir uma pizza e assistir ao fantástico. E foi isso que ele tentou fazer.
Tudo concluído, ele entrou no seu popular, ligou o rádio para ouvir um pagodinho, e saiu de Marechal Hermes rumo à Pavuna, bairro onde reside.
Domingo tranquilo, sem trânsito; não haveria de demorar, logo estaria na companhia de seus entes queridos, sentado em seu sofá que acabara de comprar em um mega saldão, para enfim desfrutar do entretenimento da revista eletrônica da TV brasileira.
Eis que de repente...
- Encosta, ladrão!
Fardas alinhadas, faces que externavam ódio e um fuzil apontado para a cabeça. Em seus 28 anos de vida, Celino nunca havia passado por situação parecida, por isso mesmo ficou estático, sem reação alguma, preferiu não se mover, até ser arrancado do banco de seu carro e jogado no meio da rua; assim, sem o menor jeito, com total truculência mesmo, chegou até a ralar o cotovelo.
- E então Corrêa, é esse aí o homem, o tal ladrão de carro que está barbarizando a zona norte?
- É ele sim Pires, é ele sim!
- Beleza, vou deixar o comandante em QAP.
A blitz estava sendo feita em uma rua totalmente deserta e sem iluminação, eram apenas dois policiais e ninguém como testemunha. Enquanto isso, Celino estava no chão, com as mãos na cabeça já achando que iria morrer como fruto de mais um mal entendido. Naquele momento, ele só pensava nos filhos e na esposa.
Tomado por um impulso divino, Celino se fez forte e tentou falar, mas não obteve sucesso, um chute na barriga veio como cala boca. Ele ainda tentou respirar fundo, tomar força para argumentar que não era o tal que estavam falando no rádio com o comandante, mas infelizmente não conseguiu.
Em meio a todo aquele clima de tensão, os policiais soltavam risos sádicos pelo telefone, até que um deles disse:
- É isso mesmo, o patrão mandou passar, esse aí não vai roubar mais ninguém aqui na área, afinal de contas, bandido bom é bandido morto!
Em poucos segundos Celino havia virado uma peneira humana, o assassinato ocorreu ali mesmo, na rua, com ele deitado com o rosto virado para o chão, todos os tiros dados pelas costas, foi execução mesmo, para que bom entendedor entendesse o recado. A missão estava cumprida.
Um domingão daquele, só restava reunir as Marias UPPs e partir para fechar um camarote no pagode, afinal de contas, aquilo precisava de comemoração, baldes e mais baldes de cerveja com energético seriam comprados em homenagem a morte de Celino, que para os policiais não era Celino, e sim Valdir, conhecido popularmente como Macaco, um bandidão que há muito tempo era procurado na área.
Tudo ia muito bem, enquanto o sangue se alastrava no chão, o sorriso dos assassinos também se alastrava na face, o sentimento era de satisfação extrema, talvez rendesse até promoção. Só que quando um dos policiais foi mexer no corpo, e enfim procurar os documentos do morto, ele viu que Macaco era Celino. Na hora, o olho do bicho arregalou tanto que quase saiu da caixa, o parceiro, vendo tal reação foi ver o que era, e ao confirmarem a cagada, ambos ficaram se olhando, como que dissessem: “E agora, o que faremos?”
- Liga pro comandante, agora!
Pelo rádio, o comandante, que estava em casa, assistindo a um filme, nem chegou a se preocupar muito, conseguiu até tranquilizar um pouco os seus subordinados:
- Ora, agora já está feito. Fiquem calmos, sem alteração para que tudo possa ser solucionado da forma correta.
- Mas então chefe, o que fazemos?
- O de sempre! Ou vocês não lembram que já fizeram esta merda antes? É só fazer a mesma coisa. Mas neste caso é melhor dizer que foi assalto, esse cara deve ser trabalhador e não fica bem colocar arma na mão dele pra dizer que foi troca de tiro, vai dar merda na televisão, sabe como é o tal dos Direitos Humanos, né, vão cair em cima, dizer que era pra ter prendido e não matado. Forja um assalto aí, dá tiro no carro, some com as provas e bola pra frente.
- Mas é só isso mesmo, chefe?
- Sim, por que haveria de ter mais alguma coisa? Tu quer assumir essa porra? O Corrêa vai assumir? Vocês querem esculhambar a nossa corporação? Então pronto, porra! Foi assalto, esse bairro é violento mesmo. Mas agora vou desligar, to ocupado aqui. E vocês não me façam besteira e saiam logo daí, mais tarde eu ligo.
- Que merda, hein Corrêa. Diferente das outras vezes, eu to com mau pressentimento quanto esse lance aí, o cara está cheio de ferramenta dentro do carro, era trabalhador, pai de família, olha a foto das crianças na carteira, demos mole.
- Pois é Pires, nós também somos, e agora já era, temos que pensar na nossa família também.
- Porra, mas tu também é foda, hein, foi confirmar que era o cara!
- Ah caralho! Esses pretos são todos iguais, ainda mais a noite, foi no impulso, jurei que era, mas não era. A gente está na febre do Macaco faz mó tempão, e o defunto aí é a cara dele, até o porte é o mesmo.
- Pois é, parece até piada, mas esses macacos são todos iguais mesmo.
Enquanto Celino virava Macaco nas mãos dos seus algozes, sua família estava em casa, esperando pelo pai e pelo marido que nunca mais chegaria.
Seu nome completo era Celino Silva, apenas isso, pois foi criado sem pai, o Silva era só da mãe. Celino certamente entrará para a estatística como apenas mais um Silva que a estrela não brilha.
Pois é, NÃO SOMOS TODOS MACACOS; ou melhor, aos olhos de alguns, somos sim, TODOS MACACOS.

Bruno Rico.
 


Quatro balas.






Morro da Providência - RJ. São oito e meia da manhã em um feriado de primeiro de abril. No céu o clima está limpo, mas no morro o tempo fechou, e fechou pra valer.
Tudo seguia na mais santa paz até o momento do corpo do cara mais querido do morro ficar estirado no chão, cravejado de balas, quatro para ser mais exato, e todas pelas costas.
O morro todo bradava em uma só voz: Mataram o Coca cola! Mataram o Coca cola!
O silêncio daquela manhã de feriado era rasgado pelos gritos das mulheres histéricas, que fizeram questão de acordar o morro todo, afinal, todos precisavam saber do ocorrido. Ato de covardia, tiros pelas costas, mentiras sendo noticiadas na mídia, ou seja, a comunidade precisava agir.
Coca cola era o apelido de Cleyton Júnior de Souza, morador do morro da Providência desde que se entendia por gente. Filho de mãe solteira, e com mais dois irmãos menores em casa, com 12 de idade ele se viu obrigado a trabalhar, e seu primeiro emprego foi como ajudante de caminhão, era um caminhão que entregava bebidas pelo bairro, e como Cleyton vivia com o seu carrinho vermelho da Coca-Cola pra cima e pra baixo, deram-lhe o tal apelido. Anos depois ele saiu deste emprego, mas o carrinho continuou lhe acompanhando, pois quando começou a trabalhar de entregador em uma loja de construção, que ficava no morro mesmo, era o carrinho vermelho – agora desbotado – que lhe fazia companhia na entrega das mercadorias, e aí não teve jeito, o apelido Coca cola se consolidou de vez, e até que ele gostava, costumava dizer para as meninas do morro que era pretinho e gostosinho que nem o refrigerante, ora o papo colava, ora o que colava era um soco bem dado no meio da cara, dado por algum namorado, ou pai ciumento.
Coca cola não tinha vícios, era o típico exemplo da flor que nasce no meio do concreto, seus amigos sempre perguntavam como ele conseguia viver sem beber e sem fumar, e categoricamente ele sempre respondia, com um sorriso nos lábios: “Já tenho tudo que preciso para ser feliz.”
De fato ele era um cara que se satisfazia com o básico, além de conseguir ver beleza nas coisas simples (um dom de poucos), e isso realmente o fazia um ser humano bem feliz. Mas o que o motivava a não usar drogas, não beber, e muito menos pegar em armas, estava dentro de sua casa, em hipótese alguma ele ousaria desapontar a mãe e os irmãos. Coca cola era daquele tipo de sujeito que venerava a mãe de tal forma, que fazia absolutamente de tudo para que ela tivesse muito orgulho dele, inclusive, muitas foram as vezes que ele deixou de fazer algo que gostava, mas que por algum motivo, não era visto com bons olhos pela mãe.
E o que mais a mãe de Coca cola tinha por ele era orgulho, daqueles que não cabiam no peito quando falava do filho para os outros, e era isso que ele não queria perder, além do que, sua postura e suas atitudes serviam de exemplo para os irmãos, que viviam se dedicando aos estudos, seguidos pelos olhos atentos do irmão mais velho, que não deixava nenhum deles trabalhar, justamente para que dedicassem o tempo somente para os livros, e para que não ficassem cansados com serviços externos; e sobre isso ele sempre dizia: “Quero que meus irmãos consigam o que eu não consegui, se for preciso arrumo até três empregos para que eles não precisem trabalhar.”
E como não ter orgulho de um filho, ou irmão assim?
Coca cola não era venerado apenas pela mãe e pelos irmãos não, tinha muitos amigos no morro, e todos possuíam um grande apreço por ele, até os bandidos o respeitavam bastante. O cara era um exemplo na comunidade, fazia o papel de pai de família dentro de casa, era daqueles amigos que dava a última moeda do bolso só para que o vizinho mais pobre pudesse ter um pão pela manhã. Quando estava com os amigos, sempre pensava mais nos outros do que nele próprio, até porque a felicidade do outro também lhe fazia feliz, era um verdadeiro irmãozão com todo mundo, difícil achar alguém na Providência que tivesse algo de mau a falar do cara, aliás, tinham os pais e namorados ciumentos das meninas que Coca cola cortejava – como já citei anteriormente -, mas até esses falavam: “Pô, esse cara é mulherengo, mas é gente boa.”
No dia de sua morte, Coca cola havia saído de sua casa por volta das sete horas da manhã, para comprar pão e leite no mercadinho, como fazia sempre, só que nesse dia a polícia resolveu fazer uma operação às pressas no local, exatamente naquele horário, pois um informante havia lhes dito que o chefão do movimento estava presente, e andava tranquilamente pelas vielas do morro com uma bermuda azul e uma camisa vermelha. O dono do morro era o Sassá, que dificilmente dava as caras na Providência, justamente por ser muito visado pela polícia, só que naquele dia, por algum motivo específico, ele estava presente no morro logo pela manhã, e de fato usava uma bermuda azul e uma camisa vermelha, mas o grande problema é que o pobre do Coca cola também havia saído de casa com o mesmo traje, e daí o pior aconteceu.
Ao ser avistado por três policiais em uma viela estreita do morro, Coca cola não teve escapatória, nem tempo para nada, até porque morreu sem saber o porquê da sua morte. O alvo estava dentro do perfil do dono do morro, era alto, negro, usava bermuda azul e camisa vermelha, que ganhou um avermelhado bem mais funesto depois que quatro tiros lhe atingiram pelas costas. Os policiais não tiveram dúvidas, não gritaram, não falaram o famoso “perdeu”, não fizeram nada disso, apenas atiraram. O “bandido” estava na mira, andando sozinho tranquilamente, era um cara procurado há muito tempo, não restava mais nada a fazer se não apertar o gatilho e depois ser condecorado no batalhão.
O corpo de Coca cola caiu no chão de bruços, os policiais que ostentavam um orgulhoso sorriso no rosto, caminharam para desvirá-lo... E eis que veio a surpresa.
O sorriso cintilante foi embora da face dos três, que fizeram expressão de preocupados, não sabiam o que fazer, pensaram em ligar para o comandante do batalhão, mas ficaram com medo, pensaram em dizer que os tiros haviam vindo da arma de traficantes em uma provável troca de tiros, mas viram que daria problema, tanto pela perícia da balística, quanto pelo horário, pois dificilmente seria encontrado algum traficante armado naquele momento no morro. Eles precisavam pensar rápido, não tinham tempo para grandes planos, daí tiveram a ideia de dizer que os tiros foram frutos de uma legítima defesa que aconteceu por conta do bandido ter esboçado sacar uma arma, e este bandido seria o Coca cola. Não era algo genial, mas era a desculpa mais viável para o momento, até porque era a mais usada nesses casos, e nunca tinha dado grandes problemas pra ninguém.
A merda já estava feita, e daqui a pouco iria começar a feder, e antes que isso acontecesse eles precisavam tomar uma decisão, que não foi tomada em comum acordo, pois ao contrário dos outros dois, um policial reconheceu o Coca cola, sabia que era um cara trabalhador e querido no morro, e por isso ficou muito preocupado, mas o nervosismo não deixou que ele argumentasse muito, e mesmo indo contra a ideia dos colegas, ele acabou aceitando, mas ficou angustiado, pois sabia que aquela história não iria acabar bem.
Depois dos tiros dados, Dona Lurdes acordou assustada, com o coração apertado, parecia ter sentido no próprio peito as balas que haviam alvejado o seu filho tão querido, que certamente estaria na rua naquele exato momento, rumo ao mercadinho. E como o barulho de tiro vinha de perto, instantaneamente a preocupação bateu, o coração de mãe falou mais alto, e do jeito que estava, descalça, apenas com uma camisola comprida, ela bateu em retirada para ver o que tinha acontecido.
Quando Dona Lurdes chegou ao local onde a tragédia havia acontecido, o corpo de seu filho já estava coberto por um pano, e não estava mais caído de costas, pois os assassinos haviam virado o corpo para tentar minimizar a covardia.
Logo que Dona Lurdes avistou um montinho amontoado, ela já sabia que se tratava de algum morto, bastava saber quem, pois montinho de gente fazendo roda em morro sempre é um corpo no chão. Quando chegou perto da rodinha, os vizinhos lhe olhavam com tristeza, e antes que alguém dissesse algo, ela fitou na única parte em que o pano não cobria, que eram os pés, e por ali ela reconheceu o seu primogênito; a pobre não conseguiu dizer nada, apenas colocou a mão no peito e caiu desmaiada no chão.
Alguns minutos depois chegaram ao local os irmãos de Coca cola, Jonathan e Tarcísio, respectivamente com 14 e 16 anos. Os garotos estavam atordoados, a comunidade já gritava por justiça, o corpo do ídolo estava morto no chão, a mãe estava no hospital, sabe se lá Deus em que condições, era um cenário terrível, a vida estava obrigando naquele momento que eles tivesses uma força que jamais imaginavam ter, até porque a força deles vinha do irmão, agora morto, logo ali, a dois metros de distância.
Em poucos minutos o morro encheu de polícia, o comandante do batalhão da área, já sabendo de todo o ocorrido, pediu para que o corpo fosse recolhido rapidamente para evitar maiores problemas, só que a comunidade toda já estava sabendo da covardia, alguns chegaram até a agredir alguns policiais, tamanha era a revolta.
Todos no morro conheciam o Coca cola, o cara simpático que já havia feito entrega de material de construção em quase todos os barracos da Providência, portanto todos sabiam que ele era um menino trabalhador, e justamente por isso  que o morro todo ficou ainda mais revoltado quando ouviu no rádio a notícia de que a polícia havia matado um bandido no morro da Providência.
- Gente, gente, estão dizendo no rádio que o Coca cola era bandido, acabei de ouvir agora. – dizia uma senhora revoltada, no meio da multidão.
- Pichar um trabalhador de bandido justo no dia do trabalhador é uma tremenda de uma sacanagem. – disse outro morador, igualmente revoltado.
Uma tia de Coca cola apareceu querendo saber onde era essa rádio, pois ela iria até lá para esclarecer esse mal entendido. Mas enquanto estava em sua casa arrumando as coisas para sair, o jornal da tarde estava sendo noticiado na TV, e em um determinado momento a apresentadora disse: “Polícia mata bandido no morro da Providência logo pela manhã. Acompanhe...”
A pequena matéria falava vagamente da morte de um bandido chamado Cleyton Júnior de Souza, e que os moradores faziam protestos no local a pedidos dos traficantes.
Pronto! Aquilo era a gota d’água para a tia de Coca cola que pretendia ir à rádio falar que estavam manchando o nome do sobrinho trabalhador, e agora? Ela iria até a televisão também? Não tinha como, por mais que estivessem denegrindo a imagem do Coca cola, ninguém podia fazer grandes coisas, eram todos favelados, e o que favelado fala não tem muito crédito na mídia, além do que, o pobre coitado não trabalhava de carteira assinada, pois se sua tia estivesse com uma carteira assinada na mão, ela iria ir onde fosse preciso para esfregar na cara de todos aqueles que estavam dizendo que seu sobrinho era bandido.
O chefe de polícia ficou sabendo de toda a confusão, inclusive que Coca cola era realmente um trabalhador, e pediu para que os principais meios de comunicação da cidade não noticiassem o fato, ou que no máximo dessem uma nota breve, mas sempre enfatizando que era um bandido que havia morrido, apenas isso, sem dar grandes detalhes, e como praticamente todos os veículos de comunicação possuíam o rabo preso, ou dependiam de favores do Governo, seguiram a ordem sem questionar.
No dia seguinte a morte de Coca cola nada se viu nas bancas de jornal a respeito do ocorrido, a mídia havia simplesmente ignorado tudo, inclusive os protestos, e os únicos que se importavam e comentavam sobre o assunto, eram os próprios moradores do morro.
Todos na Providência gritaram aos quatro cantos do mundo que a morte no morro havia sido uma injustiça, que os policiais atiraram primeiro para depois perguntar, pois Coca cola era trabalhador; mas era tudo em vão, eles não conseguiam ter voz, não conseguiam um espaço na TV, rádio, ou jornal, e aquilo foi revoltando profundamente a todos, principalmente os irmãos Jonathan e Tarcísio, que além dos inúmeros problemas, ainda estavam com a mãe internada no hospital.
Dona Lurdes havia sofrido um princípio de infarto, e os remédios não deixavam que ela chorasse a dor pela perda do filho, a coitada estava totalmente anestesiada, o caso foi tão grave que ela ficou por praticamente uma semana sob os cuidados dos médicos.
Quando saiu do hospital, e enfim foi para casa, ainda sob o efeito de remédios, Dona Lurdes viu um muro branco logo na subida do morro com os dizeres: “Mataram o nosso mano que fazia o morro mais feliz, e indiretamente ainda faz, mano Coca cola esteja em paz”. A frase fazia alusão a uma música de rap, que era a preferida de Coca cola.
O tempo foi passando e as coisas na casa de Dona Lurdes nunca mais foram as mesmas, e nem poderiam ser, a dor e revolta eram tamanhas. E como se já não bastassem os problemas, os irmãos de Coca cola decidiram entrar para a bandidagem do morro, diziam que iam matar polícia, que iam vingar a morte do irmão que havia morrido com apenas 19 anos de idade. A mãe não teve forças para impedir, e infelizmente o sonho de ter dois filhos estudados e encaminhados na vida, caiu por terra.
Na bandidagem os irmãos ainda conseguiram ficar algum tempo, mas um bandido mais experiente sempre dizia que quando o ser humano age por instinto de raiva, as coisas sempre acontecem da pior forma, e não teve outra. Certo dia, Jonathan, o mais novo dos irmãos, conseguiu enfim acertar um policial, que morreu no hospital, ao saber do ocorrido ele fez festa, comemorou a noite toda, dizia ter matado mais um corrupto, mas por ironia do destino ele havia tirado a vida do único policial 100% honesto que havia no batalhão da área.
No dia seguinte o morro encheu de polícia, os bandidos já sabiam que isso iria acontecer e ficaram entocados por uma semana, mas uma hora tiveram que sair, e quando saíram o alvo foi o matador de polícia, que no fundo já sabia que não ficaria vivo, pois quem mata polícia no Rio de Janeiro, dificilmente tem outro fim, se não a vala, e assim foi o fim do jovem Jonathan, morto com uma saraivada de tiros, sem dó nem piedade, um recado bem dado pela polícia do local.
Tarcísio ficou ainda mais sem rumo, se envolveu com drogas, continuou no crime para manter o vício, e tempos mais tarde foi preso.
A essa altura do campeonato, Dona Lurdes já havia arrumado refúgio na religião, se agarrou com o pastor, vivia na igreja dia sim, dia não, dava tanto dinheiro para a igreja que certo dia chegou a ficar sem alimento dentro de casa, mas os vizinhos nunca deixaram que ela passasse fome, na verdade todos entendiam o fardo de uma mãe que estava com a vida destruída, vida esta que outrora era tão prazerosa e feliz, apesar dos pesares. Mas a morte de dois filhos, e a prisão de outro, era demais para ela, na verdade seria demais para qualquer mãe, e ela não conseguiu arrumar forças em lugar nenhum, nem na igreja, até porque ela havia virado evangélica para que Deus atendesse um único pedido, Dona Lurdes queria morrer, toda vez que ia à igreja ela pedia por isso, e quando ia deitar-se para dormir fazia uma oração pedindo para não mais acordar. Mas Deus não está atendendo as suas preces, pois ela segue vivendo, ou melhor, sobrevivendo, e sempre que acorda - frustrada por ainda estar viva - ela fita a foto de Coca cola, que está em cima de uma cômoda perto da cama, e pensa como aquelas quatro balas serviram para acabar com quatro vidas, pois quando atiraram no Coca cola, levaram a vida dele, dos irmãos, e da mãe, que segue com sua dor no peito rotineira, como se uma bala estivesse literalmente alojada em seu coração.




Bruno Rico.