Sopro de vida.




Rodolfo Garcia Castelo, conhecido apenas como Seu Castelo, era um Capitão reformado da Aeronáutica brasileira.
Com 57 anos de idade ele foi afastado de suas funções por conta de uma diabete de tipo raro, e por problemas coronários que exigiam praticamente um repouso quase que vinte e quatro horas por dia.
O problema é que Seu Castelo era o tipo de homem super ativo, sempre acostumado a acordar bem cedo, a chegar à padaria no primeiro horário para comprar o seu pãozinho, para depois desfrutar de um belo café da manhã regado a muito chocolate – um vício que ele não sabia como viver sem. Tudo isso feito, era hora da religiosa corridinha na orla de Copacabana, quando não, uma boa andada de bicicleta pela zona sul do Rio de Janeiro.
Basicamente essa era a rotina de Seu Castelo antes que as doenças lhe tirassem do trabalho e lhe arrancassem os prazeres da vida.
No mesmo ano em que se aposentou, e que foi proibido de fazer diversas coisas que gostava, inclusive de comer o seu chocolate, Seu Castelo teve o seu primeiro neto, que iria se chamar Rodolfo em homenagem ao avô, mas o próprio Castelo não deixou que isso acontecesse.
- Tá maluco filho, colocar o nome do meu neto de Rodolfo, para depois virar Rodolfinho, que ridículo! E outra, esse nome saiu de moda antes que a seleção brasileira fosse campeã em 70, faz isso com o moleque não.
Diante do pedido do pai, Igor, filho de Seu Castelo, não teve saída, e escolheu outro nome para seu filho, que acabou se chamando Gabriel.
Gabriel acabou suprindo todas as coisas que a doença infelizmente havia tirado de Seu Castelo, que sempre agradecia a Deus pelo nascimento do neto, pois sem isso ele já teria morrido de tédio e frustração há muito tempo.
Com o passar dos anos as doenças foram se agravando, os cuidados tiveram que ser aumentados, e com tudo isso Seu Castelo foi passando de um homem bem humorado para um velho bem do ranzinza. Os chocolates diets, já estavam completamente sem graça, e ele sentia uma profunda falta da corridinha matinal na orla de Copa.
Seu Castelo queria sentir o gosto verdadeiro das coisas, e precisava urgentemente de algum tipo de aventura, pois a doença estava literalmente lhe matando aos poucos.
O único lazer que tinha era o de contar histórias para seu neto Gabriel, que adorava os contos de guerra e as aventuras do avô militar, que às vezes até vestia farda para contar algum causo, que na maioria das vezes eram totalmente fantasiosos e sequer tinham acontecido; mas nada disso importava diante dos olhinhos brilhantes do pequeno Gabriel, que sempre ficava ávido por ouvir mais histórias do avô.  
Quando estava com 68 de idade, Seu Castelo começou a perceber que algumas coisas já estavam diferentes, Gabriel já estava com 11, e as histórias de guerras e aventuras já não possuíam mais a mesma magia, não que o neto falasse alguma coisa, mas Seu Castelo percebia que o brilho no olhar do menino já não era mais o mesmo, e aquilo foi fazendo com que ele perdesse os seus últimos sopros de vida.
Certo dia a rotina entediante se mostrou insustentável para Seu Castelo, que enfim resolveu radicalizar de vez. Mas antes ele fez questão de escrever uma carta, que tinha como destinatário o endereço do apartamento de seu filho Igor.
No dia seguinte, logo pela manhã, Seu Castelo fez questão de reviver alguns dos costumes de antigamente. Acordou bem cedo, saiu sorrateiramente de casa, para que ninguém acordasse, passou na padaria, tomou café por lá mesmo, e abocanhou uma barra de chocolate com o maior prazer do mundo, chegou inclusive a delirar por alguns segundos, já que aquela barra não era diet, e ele a comeu inteira sem deixar nenhum rastro.
Depois o velho militar partiu para a orla, estava a fim de correr, mas temeu não aguentar muito tempo, e como ele queria que aquele momento durasse o máximo possível, resolveu alugar uma bicicleta, e dali partiu feliz da vida. Como Seu Castelo morava no final de Copacabana, ele pedalou bravamente em um ritmo pra lá de acelerado até o posto 1 no Leme, e no exato momento em que parou de acelerar, o corpo sentiu, e seu coração também parou de bater.
No chão ficou estendido o seu corpo, mas sua alma já não estava mais presente.
Em meio a toda aquela multidão que o cercava, um pedestre fez questão de dizer:
- Nossa! O vovô morreu sorrindo, esse foi embora feliz.
No dia seguinte, logo após o enterro, Igor chegou a seu apartamento desolado, ao seu lado, de cabeça baixa – quase beijando o chão - estava Gabriel, que também parecia sem rumo por ter perdido o seu grande herói de guerra.
No exato momento em que abriu a porta, Igor foi surpreendido por sua empregada, que estava bem agitada.
- Seu Igor, chegou uma carta aparentemente bem importante para o senhor. – disse a emprega, com olhos esbugalhados.
- Agora não Clarinha, depois eu vejo.
- Mas é uma carta do seu pai.
- Do meu pai? – perguntou Igor, totalmente surpreso e com cara de assustado.
Depois da resposta afirmativa de Clarinha, que também estava bem assustada, Igor e Gabriel pegaram a carta, sentaram - se no sofá da sala, e Igor começou a ler a carta em voz alta:

“Meus queridos, Igor e Gabriel, se estão com esta carta em mãos é porque provavelmente o meu plano de viver deu certo.
Primeiramente gostaria de dizer que vocês foram os motivos pelo qual fiquei vivo durante todos esses anos de doença, ficar lembrando o tempo em que contava minhas histórias para meu filho quando criança, e depois reviver isso com meu querido neto não teve preço.
Eu estava morrendo aos poucos, estava infeliz, não achava mais graça nas coisas, e a cada dia que acordava me lembrava de tudo que eu fazia antes de ficar doente, e tudo aquilo me machucava profundamente, às vezes eu até chorava em silêncio, pois nem sempre estar respirando quer dizer estar vivo, e era assim que eu me sentia na maioria dos momentos.
Até que num certo dia eu resolvi viver de verdade, fazer as coisas que estava realmente com vontade, e olha que elas eram simples, eu queria apenas comer um bom chocolate e pedalar na orla, só isso.
E podem ter certeza que mesmo escrevendo esta carta antes de ter feito essas coisas, posso garantir que tudo foi muito prazeroso, e voltar a viver foi simplesmente fantástico.
É por isso que eu quero que vocês dois vejam a minha passagem como vida, e não como morte, pois foi no dia da minha morte que eu vivi como há anos não vivia, eu pude sentir a felicidade dentro de mim novamente, pude sentir o meu último e mais prazeroso sopro de vida.
Amo muito vocês.

Capitão Castelo.”


Bruno Rico.

3 comentários:

Lais Simões disse...

Que lindo conto,Bruno! Beijão

Liana Fernandes disse...

Lindo!

Parabéns meu filho,Deus lhe abençoe!.

Brincando de casinha disse...

Muito lindo,Bruno!

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