Os imbecis venceram.


O assunto ainda é o Seu Jorge, mas dessa vez foi o próprio artista que se manifestou, e por isso eu achei válido colocar o link da entrevista dele aqui no blog, pois foi aqui que tudo começou.
Gostaria de ressaltar apenas um trecho da entrevista: "Deixei claro que não gostei. Fiz de propósito. No Rio, nessa configuração, na Lapa, só toco em 2022. Posso tocar em Vila Isabel, Padre Miguel, Nova Iguaçu. Mas nessa configuração, só em 2022. Porque o garoto de 12 anos terá 22. O público vai ter renovado."
É por isso que o tema da matéria é "Os imbecis venceram", já que infelizmente, as pessoas que vaiaram e que falaram besteira, conseguiram deixar o artista chateado a tal ponto, do mesmo não querer mais cantar no local.
Pois é, nem sempre os imbecis vencem, mas nesse caso específico, eles conseguiram.
Segue o link da entrevista: http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2012/11/seu-jorge-na-lapa-so-toco-de-novo-em-2022.html

E não é que rendeu.



Pois é; eis que a crônica “Salve Jorge”, escrita pelo preto aqui, e postada neste blog, deu muito que falar na internet.
Mais de 66.000 pessoas leram o texto, mais de 190 comentaram (isso só aqui, pois nas redes sociais não deu pra contar). O humilde blog que antes contava com 56 seguidores, agora está com quase 160. Meu texto foi compartilhado nas páginas oficias de artistas que eu possuo grande estima, como Gilberto Gil e EMICIDA.
É válido também dizer que as minhas palavras não ficaram restritas somente em solo brasileiro, recebi e-mail de um jornalista da França pedindo autorização para que o meu texto fosse publicado em uma revista do país: http://www.micmag.net/pt/sua-voz/1452-um-acontecimento-que-ocorreu-no-show-do-seu-jorge-no-rio. No meu e-mail também recebi inúmeros comentários de brasileiros que moram fora do Brasil, no meu Facebook as coisas também não foram diferentes, muita gente adicionando, comentando; e eu acabei conhecendo pessoas interessantíssimas. Ou seja, as palavras deram frutos, bons frutos! Confesso que não imaginava que o meu relato fosse tomar tamanhas proporções – até porque já escrevi inúmeros outros – mas que bom que dessa vez a coisa explodiu, fiquei muito feliz.
E diante de tudo que ocorreu, eu não poderia deixar de fazer pequenas ressalvas a respeito de algumas questões.
Antes de entrar nesse mérito, eu gostaria de agradecer a todos que leram o texto, todos mesmo, inclusive as pessoas que divulgaram e comentaram, pois o retorno de tudo isso foi muito gratificante graças a todo esse pessoal.
Gostaria também de deixar bem claro que eu li todos os comentários aqui do blog, vi que muita gente concordou com o meu ponto de vista, algumas discordaram, outras pessoas que também estiveram no dia do show comentaram e deram a sua versão, o que foi muito engrandecedor para todo o debate a cerca do assunto.
E é basicamente a respeito de algumas coisas ditas nos comentários, que eu gostaria de escrever um pouquinho.

A primeira questão de todas é o fato de muitas pessoas defenderem que a vaia não foi preconceituosa, pois grande parte do público não sabia que a declamação era “negro drama”, pois a maioria das pessoas sequer estava ouvindo claramente o que era dito.
Bom, concordo que no momento da declamação, as palavras não estavam 100% audíveis, até porque o arranjo não ajudou muito, porém, em diversos momentos, algumas frases marcantes da poesia/música, foram gritadas claramente pelo Seu Jorge, dando a entender que o que estava sendo falado possuía uma temática negra, e foi justamente aí que as vaias surgiram. Sem falar que depois da poesia, Seu Jorge fez um belo discurso político, e esse sim foi plenamente ouvido, e mesmo assim as vaias continuaram.
Eu sou muito observador, me atento a mínimos detalhes, e apesar de tudo que foi comentado aqui, eu continuo com a humilde opinião que no meio daquelas vais existia um pouco de tudo, inclusive preconceito.
Mas lógico que isso é uma questão de ponto de vista, e eu compreendo as mentes que pensam diferente, até porque vivemos em um país que tenta maquiar tudo que aparenta ser racismo, daí a população, e os próprios negros, ficam sempre na dúvida se é ou não. E olha que eu não sou de achar preconceito em qualquer coisa não hein.
Mas a questão que me incomodou em alguns comentários não foi nem essa em si, foi o fato das pessoas não acompanharem a carreira do artista.
Ora bolas, Seu Jorge declama “negro drama” a pelo menos três anos, e será mesmo que a maioria das pessoas não sabia que isso iria ocorrer no show da Lapa? Essa é a questão! Não entra na minha cabeça a pessoa pagar para ver o show de um artista que ela não acompanha.
Será que o público do Seu Jorge não sabe que o mesmo gravou uma música e um clipe com o Edi Rock, dos Racionais? Será que esse público não sabe que Seu Jorge esteve no palco do VMB deste ano cantando com o mesmo Edi Rock? E essas pessoas também nunca viram na internet, ou ouviram falar que o Seu Jorge declamava “negro drama” eu seus shows? Bem, se alguém que estava no show da Lapa, respondeu a todas essas perguntas com um categórico “não!”, eu só gostaria de fazer mais duas perguntas: o que raios esta pessoa estava fazendo lá? E o que faz este ser divino pagar para ver o show de um artista que ele não sabe a que pé anda?
Eu posso estar sendo chato, mas eu particularmente não vou a show de artista que eu não acompanho, eu não sou uma pessoa de ir a um evento musical para ouvir apenas uma ou duas músicas, para eu ir ao show de alguém eu tenho que gostar pelo menos de mais da metade de sua obra. E com tudo isso eu só posso concluir que grande parte do público daquele fatídico dia pensava totalmente diferente de mim nesse sentido, e eis aí o X da questão, ou da vaia.

Agora eu vou para outro tema, que também foi levantado aqui nos comentários. Teve gente dizendo que o Seu Jorge tem culpa nisso tudo, pois suas músicas atuais atraem esse tipo de público (digamos fútil), e talvez ele devesse repensar sobre as suas gravações. Sobre isso eu concordo em partes, infelizmente hoje em dia ter música em novela não atrai muita coisa boa mesmo não. E talvez alguns shows mais baratos, algumas composições com mais “punch” mudassem um pouco isso.
Porém o que eu não concordei foi com o fato de algumas pessoas darem a entender que o Seu Jorge esteja sendo hipócrita ao declamar “negro drama”, por ele andar de carrão, com uma loira do lado.
Bem, quem fala isso deve achar que a pessoa que morou na rua, ou nasceu na favela deve continuar por lá. Quem fala isso deve achar que as riquezas do país devem continuar nas mãos das mesmas pessoas de sempre. E quem fala isso com certeza não suporta ver um preto bem de vida. E a respeito da loira, mais uma vez entra a questão de não conhecer nada sobre o artista Seu Jorge. A loira em questão se chama Mariana, é casada com o cantor há anos, possui duas filhas lindas com ele, dá nome a música do Seu Jorge, e foi ela que praticamente mudou a vida do cara, ou seja, não é uma loira qualquer (rsrsrs).
E outra, esse tipo de gente que acha que preto não pode, ou não deve ficar com branca, e vice versa, pra mim é tudo um bando de preconceituoso. A nossa raça é uma só, a humana, e os humanos se relacionais entre si, independente de cor, que mal há nisso? Eu por exemplo me sinto muito mais atraído por mulheres negras do que brancas, mas isso não quer dizer que eu não veja beleza nas brancas, ou que nunca tenha me relacionado com uma; não tem nada a ver. Eu já ouvi homem dizendo, por exemplo, que nunca sairia com uma mulher preta, e eu sinceramente não consigo entender isso, pois pra mim um cara desses não é homem.
O fato das pessoas acharem que negro só deve ficar com negra já é um preconceito, e o fato das pessoas também acharam que as cores não podem se misturar também é um preconceito, pelo menos eu vejo assim, sei que muita gente pensa diferente, mas eu penso desse jeito. Pois na minha concepção de amor, e atração, a cor da pele não pode e nem deve cercear o sentimento de ninguém, o coração é que escolhe, e o tom de melanina, pra mais ou pra menos, não tem nada a ver com isso.

Puxa vida, eu tento ser sucinto nas palavras e dificilmente consigo, elas vão ganhando vida de forma impressionante, ainda mais com um tema rico como esse. Mas está tudo certo, pelo menos eu consegui esmiuçar boa parte dos tópicos que queria.
Pra fechar eu só gostaria de agradecer a todos mais uma vez, inclusive aos que elogiaram e criticaram a minha abordagem, pois todos são sempre bem-vindos.
Gostaria de pedir para as pessoas não sumirem do blog, pois eu posto muita coisa interessante aqui, inclusive, se o mundo não acabar no final de 2012, em 2013 eu pretendo lançar pelo menos um dos meus dois livros, estou me dedicando bastante para isso, e eu sei que através da matéria do Seu Jorge muita gente interessante entrou no meu blog, e tenho certeza que essas pessoas irão curtir muitas outras coisas que já estão aqui, e tantas outras que ainda virão pela frente. 
Leiam, reflitam, comentem, elogiem, critiquem, acrescentem; eu quero é isso mesmo.
Vivemos em um tempo de uma mídia seletista e tendenciosa, que noticia o que quer, da forma que quer; basta ver o caso do furacão Sandy que devastou Cuba e matou dezenas de pessoas no Caribe, e só os EUA é que foram notícia. Por conta disso tudo os relatos precisam ser propagados, algumas pessoas já estão saturadas de informações superficiais. E para estas pessoas eu digo: este blog é para vocês.
E salve Jorge! 

Bruno Rico.

Salve Jorge!


Não, não! O texto não é sobre a nova novela da Rede Globo.
Não, não! O texto também não é sobre o santo guerreiro da Capadócia.
Este texto (leia desabafo) é uma crônica sobre um acontecimento que ocorreu no show do Seu Jorge, neste sábado (27/10/2012). E o que aconteceu definitivamente precisava e precisa ser relatado de uma forma bem abrangente, as palavras clamam por liberdade dentro de mim; é a agonia do escritor que só cessará após o último ponto final.
Para que o nobre leitor se ambiente com o que será relatado, primeiramente é preciso dizer que o show ocorreu na Fundição Progresso, uma conceituada casa de shows da Lapa, Rio de Janeiro; e por volta de 01h00min da madrugada de domingo, o grande DJ CIA se posicionou na sua pickup, que ficava no centro do palco, e começou a discotecagem para animar o público.
Como sempre o CIA foi impecável, tocou alguns clássicos da black music mundial, e deixou a plateia no ponto para receber a grande atração da noite: Seu Jorge.
Depois de 15 minutos de DJ CIA, Seu Jorge entrou no palco, o próprio CIA também continuou onde estava, e o show seguiu.
Tudo estava indo muito bem, Seu Jorge dançava e cantava como se fosse o seu primeiro show, e todos estavam curtindo.
A alegria do artista era compreensível, ele que é um cantor que viaja muito pelo mundo, estava fazendo um show no seu país e na sua cidade, ou seja, estava em casa.
E por incrível que pareça, praticamente no meio do show, a própria casa, ou parte dela, o apunhalou.
Agora que começa verdadeiramente o texto, agora é que virá o assunto que dividiu o show em duas partes. E eu vou confessar: to puto até agora.
Pra quem não sabe - e pelo visto muita gente que estava presente no show não sabia – a apresentação do Seu Jorge tem alguns momentos temáticos, ou seja, em determinado momento ele canta uma sequencia mais romântica, em outra mais dançante, e temos também uma sequencia politizada/protesto, com a música “zé do caroço”, seguida da declamação de “negro drama”, dos Racionais mc’s.
Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Seu Jorge tem muita autonomia para declamar “negro drama” em um palco, pois um cara que morou na rua, passou fome, sofreu preconceito, e hoje é o que é mundialmente, tanto quanto músico, como ator, tem SIM muita propriedade para se intitular um negro drama, afinal de contas... Dinheiro, problemas, inveja, luxo, fama.
Enquanto Seu Jorge declamava com muita paixão os versos de “negro drama”, parte da plateia começou a vaiar, pois é, vaiar! Antes de continuar eu só gostaria de fazer um questionamento: o que leva uma pessoa a pagar R$60,00 no show de um artista, e posteriormente vaiá-lo? Pois esse foi o meu questionamento imediato na hora, depois vieram muitos outros, mas enfim...
As vaias não intimidaram Seu Jorge, que prosseguiu firme como o seu homônimo santo da Capadócia.
Quando a declamação chegou na parte do Brown, as vaias já eram bem mais expressivas, alguns até vociferavam um coro de: “canta, canta, canta!” Dando a entender que todo aquele recital negro já estava ferindo os tímpanos de alguns acéfalos – racistas talvez – que só queriam cantar e dançar, apenas isso. Talvez uma declamação de “branco drama” soasse melhor naquele momento, talvez não houvesse a vaia, talvez. Mas como não existe tal poesia, eu só posso ficar no talvez.
Eu estava no show com a minha companheira, meu compadre e minha comadre, e todos nós ficamos profundamente chateados e estarrecidos com o que estava acontecendo, afinal de contas, aquelas vaiais ecoavam vários significados: preconceito, ignorância, intolerância, alienação e etecetera e tal. E isso tudo em pleno 2012. E tem gente que ainda acha que o ser humano evoluiu alguma coisa.
Após declamar “negro drama” por completo, as luzes do palco se apagaram, Seu Jorge se calou por alguns instantes, e ao acender das luzes o artista já estava visivelmente abatido, porém não se curvou, e discursou palavras parecidas com estas:
- “Quando eu toco na França eles falam muito bem do Brasil, lá eles falam que se você for branco, bonito e tiver uma faculdade, o Brasil é o lugar para ir. Portanto, vocês que são brancos, bonitos, possuem uma faculdade e o papai dá tudo, aproveitem, pois tem alguém de olho no emprego de vocês.”
Em meio a aplausos e vaias ele continuou...
- “Essa música ‘negro drama’ tem muito significado pra mim, e nos meus shows ela vem seguida de ‘zé do caroço’. Vivemos em um país onde a maioria das pessoas luta pra caramba e permanece na miséria, um país onde a classe trabalhadora não é respeitada, e tudo isso tem que ser dito”.
E teve mais (dá-lhe Jorge!)...
- “Joaquim Barbosa lavava o chão do lugar onde hoje ele é ministro chefe, um cara negro, que nasceu pobre, estudou em escola pública, e hoje é o que é, hoje fez o que fez, o cara bateu na cabeça dos políticos, condenou muita gente, mesmo que não dê em nada ele fez o seu papel, condenou, em um país onde não se condena político ele foi lá e fez, tinha que ser um negão pra fazer um bagulho desses.”
Seu Jorge falou mais algumas coisas que não me lembro, até porque minha mente estava em profunda ebulição, era muita informação e emoção para um momento só.
Bom, depois de tudo isso, depois de todo esse desabafo do artista, eu nem preciso dizer que o clima da casa mudou totalmente, e como eu escrevi antes, o show ficou dividido em duas partes: antes de “negro drama” / depois de “negro drama”. Que simbologia poética isso, hein.
Logo depois desse marcante fato, Seu Jorge generosamente chamou uma convidada no seu palco, e fez questão de dizer que ela cantava uma onda diferente da dele, mas que era para todos ouvirem, pois a cantora era de qualidade, e de fato era – se bem que no Brasil isso não tem grande valia.
A cantora era de São Paulo, se chamava Cris Oak, e cantou Jazz. E quando eu pensei que os ânimos iriam ficar mais amenos, eis que no meio da música da convidada, as vaias voltaram, e a ignorância cultural do público aflorou outra vez. Talvez se o convidado fosse um Michel Teló, com seus hits dançantes, as coisas fossem diferentes, mas como era um Jazz, e pouca gente sabe apreciar isso, ainda mais no Brasil, a cantora foi obrigada a ouvir algumas vaiais também. Certamente essas vaiais ainda faziam parte da insatisfação dos ouvintes que ficaram profundamente ofendidos com a declamação de “negro drama”.
Depois de tudo isso, Seu Jorge voltou a “cantar”- e eu coloquei com aspas, pois o artista não foi mais o mesmo, e nem deveria ser!
Seu Jorge passou a “cantar” com total descompromisso, não dançava mais, e geralmente ficava parado em algum canto, com um braço cruzado nas costas, enquanto o outro segurava o microfone, tudo isso nitidamente sem ânimo algum.
Logicamente que ninguém é obrigado a gostar de nada, mas as pessoas precisam aprender a ter respeito, e foi isso que faltou no show. Muita gente certamente não gostou da declamação de “negro drama”, tudo bem, é um direito, mas chegar ao ponto de vaiar soa muito radical e preconceituoso sim! Até porque depois disso ele fez um discurso bem fundo nos problemas do Brasil, tanto em questões raciais, quanto sociais, e aquilo pareceu ter ferido ainda mais os tímpanos de alguns, pois como diz na própria música que causou toda a discórdia: “periferias, vielas e cortiços, você deve tá pensando, o que você tem a ver com isso”.
E enquanto a sociedade brasileira achar que não tem nada a ver com o problema do menos favorecido, as coisas nunca irão progredir de fato, pois a história do Brasil nos mostra isso. E certamente esse foi o pensamento de muitos no show.
Os sentimentos preconceituosos estavam tão evidenciados, que eu consegui ler as mentes. Sabe aquela nuvenzinha branca das animações que relatam os pensamentos? Pois então, elas estavam visíveis para mim, a maioria tinha o seguinte texto: “porra, que é que esse negão tá falando aí no palco, eu quero ouvir música, quero entretenimento, foda-se o problema do preto, do pobre, eu quero dançar”.
E com estes pensamentos retrógrados, todos nós seguimos dançando a mesma música: a da ignorância. Ignorância que cega e individualiza os seres cercados em seus condomínios. Ignorância que vaia o artista que discursa sobre os problemas de um país, dando a entender que todos nós vivemos as mil maravilhas. A ignorância sempre foi, e sempre será um dos maiores problemas do brasileiro, e engana-se quem pensa que ignorância tem a ver com pobreza ou grau de instrução, tem muita gente com a conta bancária lotada de cifras, com diploma não sei da onde, que é totalmente ignorante em diversos aspectos.
Como diria uma boa cozinheira: “o bolo desandou”. Essa foi a frase que passou a definir o show do Seu Jorge depois de declamar “negro drama”.
Confesso que depois desse show eu fiquei muito mais fã do artista e da pessoa Jorge Mário da Silva. E também consegui ficar muito mais descrente com a população do meu país, pois a mesma mergulha em uma falta de cultura profunda, eu tenho até medo de ver onde isso vai parar. As pessoas não sabem mais o que ouvem, não sabem mais a origem de nada, querem tudo mastigado, não pesquisam nada, não respeitam nada, não questionam nada, e lutam apenas por um bem individual, e nunca coletivo; esse é o perfil do cidadão brasileiro padrão, um cidadão omisso, que não conhece a sua real cultura. Um cidadão hipócrita, que tem coragem de fazer passeata durante o dia, vestido de branco, enquanto a noite, ele briga na rua após tomar uma simples fechada no trânsito.
É preciso repensar o nível de imbecilidade, intolerância e ignorância que o nosso povo chegou, não sei se isso tem volta ou remédio, o meu pessimismo diz que dias piores virão.
Enquanto isso, só me resta relatar o cotidiano, poetizar as revoltas e os sentimentos de um mundo cada vez mais sem sentimento, que é habitado por seres que não aprenderam a apreciar uma verdadeira arte.
Só me resta terminar esta crônica com uma frase dita pelo próprio Seu Jorge, em meio a todo tumulto: “Viva a alienação carioca!” Embora eu saiba que este mal possui esferas que vão muito além de terras cariocas, infelizmente.
Ah, só pra constar: histórias, registros, escritos, não é conto nem fábula, lenda ou mito.


Bruno Rico.






Garatujas. Parte 3.



Ah, mas como é uma merda ser realista! E eu estou falando a verdade, se eu pudesse escolher seria mais um iludido nesse mundo, esses seres de que falo, certamente vivem bem mais satisfeitos com a vida do que um ser que vê e sente a realidade em tudo (que chatice é ver tudo como realmente é).
Logicamente que é muito melhor acreditar em tudo que se é falado, logicamente que é muito melhor ainda acreditar no ser humano, e logicamente que é melhor achar tudo lindo ao invés de real.
Alguns desses iludidos, às vezes sofrem um surto psicótico que os aproxima da realidade, mas quando isso acontece eles sempre encontram uma saída. Alguns afogam suas realidades no álcool, sentados em uma mesa de bar; outros mais caseiros sentam em casa mesmo, no sofá, e ligam a TV em um canal com uma boa dose de antídoto contra a realidade; ou seja, cada um dá o seu jeito, os iludidos são bem criativos, na verdade eles precisam ser.
Viva o mundo da fantasia! Viva a essência lúdica da mentira fantasiosa! Vamos aplaudir os iludidos e queimar na fogueira os realistas, afinal de contas, pra que serve um realista se não para ser tachado de chato? Os realistas se corroem em uma solidão imensurável matutando as suas verdades absolutas que só são latentes a si. Em contrapartida, o resto do mundo monta o circo da ilusão, joga a lona pra não bater sol nem chuva, faz morada feliz da vida, e ao passear pelas ruas assobia feliz chutando pedrinha no chão; essas pessoas acreditam piamente na televisão e acham tolas todos aqueles que na realidade não enxergam ilusão.
É por tudo isso que repito com toda força a frase que iniciou esta garatuja: ah, mas como é uma merda ser realista!

Bruno Rico.

Não tem como fugir.