Os canalhas da Mangueira - Capítulo 2.


Os canalhas da Mangueira.
Capítulo 2 – Aprendendo a jogar sinuca.
Este conto possui pitadas – senão o saleiro todo – de machismo, sexo, traição e fetichismo.



Mangueira teu cenário é uma beleza, que a natureza criou...

Tyson caminha pelo buraco quente da Mangueira rumo a mais um dia de trabalho. No bar do Xexéu toca um samba do Cartola, o que deixa Tyson mais animado para um dia de luta, pois o próprio sempre diz que a música é a única coisa que lhe acalma de fato.
O temperamento impulsivo sempre deixou Tyson em situações complicadas, é bem verdade que se ele fosse um sujeito mais sereno, a sua vida seria menos sofrida, mas personalidade é complicado, não se muda assim tão fácil, ainda mais com uma vida difícil, cheia de traumas, como foi a dele.
Tyson é daquele tipo de sujeito que xinga na cara se não gostar de alguma coisa, e não importa quem seja, tanto é que ele está indo para a sua terceira carteira profissional, tantos foram os lugares que ele já trabalhou. Com apenas trinta e dois anos de idade ele já coleciona passagens por mais de trinta empresas; trinta! É coisa pra cacete. O motivo das demissões? Ofensas e desavenças com os chefes, em alguns casos o caô chegou as vias de fato.
Com o tempo, além das empresas se cansarem dele, ele também se cansou das empresas e resolveu por em prática a profissão de pedreiro que seu tio lhe ensinara quando adolescente. Pedreiro tem mais liberdade, geralmente as obras não duram tempos muito longos, e ainda por cima dá pra xingar o patrão de tudo que é nome sem grandes consequências, afinal de contas, obra é o que não falta. E o Tyson é um pedreiro dos bons, daqueles que promete o que cumpre sem grandes delongas. Ele sempre fez obras esporádicas no morro e sempre foi muito elogiado por isso, mas nunca quis levar a sério, até que tomou gosto pela coisa.
Muitas casas do buraco quente têm o suor do trabalho de Tyson, mas ele mesmo sabe que viver de obra dentro do morro em que foi nascido e criado é complicado, afinal, não dá pra cobrar muito, às vezes nem dá pra cobrar, pois tem sempre aquela camaradagem, aquele churrasco, aquele tratamento especial, e isso tudo vale mais do que dinheiro, pelo menos pra ele. Mas como todo mundo precisa de grana pra sobreviver, ele precisou encarar tudo isso de forma mais profissional, e com a ajuda de seu amigo Renato, começou a fazer obras em casa de bacana, e aí sim o dinheiro começou a surgir, além de muitos outros benefícios.
Tudo isso gera uma boa segurança para Tyson, hoje ele ganha bem, não tem rotina, conseguiu até colocar seus dois filhos em uma escola particular e está trabalhando em algo que gosta. Poderia ter coisa melhor? Poderia! As esposas dos patrões.
Desde que começou a trabalhar com obra nos condomínios da Barra da Tijuca, que Tyson faz muito sucesso com as mulheres de lá. Logo nos primeiros meses ele já tinha bastante história pra contar, e quem as ouvia logo com exclusividade era o amigo Renato, que era quem sempre arrumava os clientes para ele.
- Porra, meu parceiro, essas suas vizinhas são piores do que as mulheres lá do morro.
- Como assim pior, Tyson?
- Porra, Renato, as mulheres tem um fogo do caralho, querem fazer coisas do arco da velha, tenho que vir sempre com muita disposição, porque encarar um dia de obra e depois fechar encarando essas piranhas não é pra qualquer um não, isso quando elas não querem trepar no meio da obra.
Aos risos, Renato diz: - Irmão, não sabia que estava nesse ritmo não.
- Pô, é foda, essas mulheres são tudo carente, os maridos só pensam em ganhar dinheiro, vivem na rua o dia inteiro, só falam da empresa, só pensam no trabalho e esquecem que as esposas querem trepar. Todas elas se queixam das mesmas coisas, eu acabo virando um psicólogo, um psicólogo que empurra nelas, essa é a terapia, entendeu?
- Tu é foda, meu parceiro. – diz Renato se contorcendo de rir.
- Depois que eu vim trabalhar pra essas bandas e vi que o ritmo ia ser esse, não contrato nem ajudante, pois iria me atrapalhar, tenho que abraçar tudo sozinho mesmo. Serei eternamente grato por esses contatos que você me arrumou.
- Que isso, irmão, amigo é pra essas coisas. Mas tome cuidado, hein, não quero te ver passando veneno com esses cornos querendo acertar as contas contigo.
- Fica tranquilo, no fim eles acabam gostando da obra mais do que as esposas.
Renato sempre ficava perguntado detalhes das mulheres, até porque ele conhecia a maioria delas. Os maridos, em sua maioria, também eram seus conhecidos, e ele achava muito interessante saber de todos esses podres e depois observar a falsidade dos casais perante a sociedade, todas as esposas posavam de senhoritas decentes, quando na verdade não podiam ver o instrumento de trabalho do Tyson.
Ao contrário dos amigos Emílio, Beto e Renato, Tyson não gosta de arrumar mulher na Mangueira, sua esposa Janaína conhece todo mundo do morro, e certamente ela saberia se ele arrumasse algum rabo de saia diferente, por isso mesmo ele tem medo e só arruma mulher fora do morro. E esta nova profissão caiu como uma luva, pois com seu corpo atlético moldado a muitas batidas de surdo um da Mangueira, o sujeito causa um sucesso tremendo com as mulheres dos ricassos.
A maioria das esposas fica em casa, com o canalha do Tyson fazendo obra logo no quartinho ao lado. Resultado: bola pra dentro da caçapa!
Por falar em bola pra dentro da caçapa... Tyson tem muita história pra contar a respeito dessas obras que faz por aí, quando os amigos se reúnem no AP do Emílio, ele sempre solta alguma coisa. Mas uma história em especial ele não esquece até hoje, história essa que ele intitulou justamente de “encaçapando no buraco alheio”.
Certa vez, Tyson arrumou uma obra em que o dono da casa queria transformar um cômodo vazio em uma sala de jogos. O magnata queria reformar o local e transformá-lo em um ambiente harmonioso, onde os amigos pudessem jogar uma sinuca, um carteado, beber uma boa bebida e jogar conversa fora.  
O trabalho do Tyson era dar vida a obra, que contava com gesso rebaixado, decoração diferenciada, iluminação especial, criação de um pequeno bar todo moldado em mármore; enfim, o dono queria um pedaço de Las Vegas dentro da sua casa, essa era a missão do Tyson, criar uma sala de jogos de arromba. E ele arrombou! Em todos os sentidos.
A obra deveria durar quinze dias, mas acabou durando um mês, não porque o Tyson tivesse sido mole ou atrasado algo, muito pelo contrário, a obra só se estendeu porque a esposa do dono convenceu o marido que mais coisas deveriam ser feitas na casa. E de fato essas coisas foram feitas, ô se foram.
Tudo isso tinha um único propósito: a distinta senhora queria passar mais dias desfrutando da presença do pedreiro da casa.
Quando Tyson arrumava essas obras e logo percebia que a esposa ficava em casa enquanto o marido trabalhava, ele logo imaginava como aquela história iria terminar, e dificilmente o final era diferente do que ele pensava.
Tyson nunca foi bom de lábia, o dom da palavra nunca foi o seu forte, e ele sempre soube disso, por isso mesmo ele falava pouco nesses casos, preferia usar do olhar, achava até mais envolvente, e de fato era. As mulheres ficavam excitadíssimas com o fato de aquele pedreiro sem camisa jogar um olhar fatal sempre que elas passavam, e o olhar do Tyson sempre foi aquele olhar de puto, de canalha da pior espécie. Com o olhar ele sempre conseguia dizer exatamente o que estava querendo, e era justamente isso que colocava fogo no pavio.
Nesta obra da sala de jogos, a esposa se chamava Marisa, tinha 41 anos, mas o corpo era de uma adolescente, moldado a muita academia e suplementos que ela mantinha na estante da cozinha.
O marido saía de manhã e só voltava de noite, e o único filho já morava sozinho, ou seja, ela ficava sozinha em casa, somente com a companhia dos empregados, que em nada lhe incomodavam ou a inibiam de fazer algo.
Tyson foi apresentado a Marisa pelo próprio marido dela, no primeiro dia de trabalho, e logo nesse dia eles já se olharam de uma forma comprometedora, Tyson não sabia exatamente quando iria acontecer, mas ele já tinha certeza que iria rolar algo.
Assim que o marido saiu para trabalhar ela foi conversar com ele, não disse nada demais, nada que a comprometesse, fez questão apenas de ser educada e nada mais.
No segundo dia ela ficava apenas desfilando pela casa, fazia questão de retribuir os olhares que eram dados por Tyson.
Já no terceiro dia a coisa esquentou, era um dia chuvoso, e ela apareceu na obra trajada com um micro vestido de seda, desses de dormir, com a polpa da bunda toda aparecendo. Tyson pensou: “É agora”. Mas não foi; Marisa gostava de instigar, todo aquele jogo de sedução parecia lhe excitar profundamente.
Nos dias seguintes ela fez questão de se exibir cada vez mais, e eles pouco se falavam, mas se olhavam como animais na selva prontos a se devorar. Até que certo dia ela fez questão de abordá-lo da forma mais direta possível.
- Você já sabe o que estou querendo, né? – perguntou Marisa, com a cara mais depravada possível.
- Lógico que sei. – Tyson largou o material da obra no chão e continuou. – E estou aqui pronto pra te dar.
- Hum, que bom, era isso mesmo que eu queria ouvir. Mas ainda não fiz o que quero fazer desde o primeiro momento em que lhe vi, por causa da mesa de sinuca.
- Como assim por causa da mesa de sinuca? Não entendi. – perguntou Tyson, alternando a face de tesão para a expressão de confuso.
- É que sou uma mulher de fetiches, não faço sexo por fazer, e decidi logo no primeiro dia que quero dar muito pra você, mas tem que ser em cima da mesa de sinuca, quero inaugurá-la, abrir os jogos.
- Mas só pode ser na mesa de sinuca?
- Só!
- E quando é que chega essa bendita mesa?
- Ela chega amanhã, e amanhã mesmo ela já será montada, por isso estou passando aqui pra te avisar, quero que esteja muito bem preparado e muito bem disposto amanhã.
Depois de falar isso, Marisa sequer deu tempo para que Tyson falasse algo, ela apenas deu as costas, soltou um discreto “até amanhã” e deixou o pobre pedreiro ali, louco de tesão, ansioso pelo dia de amanhã.
Neste mesmo dia, Tyson ligou logo para o amigo Renato, fez questão de dizer que iria traçar mais uma madame. Renato pediu para que o amigo contasse tudo depois do feito, e eles marcaram de tomar um gelo amanhã mesmo, logo após o ato.
            No dia D, Tyson fez questão de tomar um café da manhã reforçado, sequer tocou em sua esposa Janaína, na noite anterior - queria guardar cartucho - e desceu o morro bem animado. Deu um caloroso “bom-dia” para o amigo Xexéu do bar, e partiu rumo à missão.
            Chegando à residência ele trabalhou normalmente enquanto os montadores da mesa faziam o seu trabalho.
            Ao final de tudo, a mesa estava prontinha, assim como Marisa, que surgiu deslumbrante em uma lingerie vermelha; logo vermelho, a cor preferida de Tyson, que foi logo agarrado e jogado em cima da mesa.
            Marisa era o tipo de mulher que gostava de um sexo agressivo, foi logo estapeando Tyson, que não se fez de rogado e também partiu para os tapas e puxões. Mas ele tinha que medir a força, pois certa vez, no ápice do tesão, ele desmaiou uma mulher, e dessa cena ele nunca esquece, e por conta disso ele aprendeu a dosar a agressividade. Tyson batia na medida certa, Marisa ficou louca em cima daquela mesa, teve inúmeros orgasmos como há muito não tinha, afinal de contas, uma mulher carente sempre deseja encontrar um homem que lhe sacie na medida certa, na medida em que ela esperava, e Tyson fez muito mais do que isso.
            Os dois transaram interruptamente e alucinadamente por uma hora e alguns minutos. Marisa estava exausta de tanto prazer, estava em êxtase, até que se deu conta de que alguém poderia chegar e resolveu parar, a contragosto, mas parou. Tyson a puxava como um animal no cio, parecia até que tinha começado a transar naquele exato momento. Ela pediu para que ele voltasse para a obra e avisou que continuaria amanhã.
            Aquele foi o dia mais produtivo de Tyson, que fez o trabalho de dois dias em apenas um.
            Ao final do expediente ele foi beber com Renato, que já havia contado a novidade para os demais canalhas, que se reuniram para ouvir mais uma peripécia de Tyson, que contou absolutamente tudo, nos mínimos detalhes. Renato, Beto e Emílio riram bastante nesse dia, até porque a forma com que Tyson contava era única, e quando ele estava animado, ninguém o segurava.
            No dia seguinte, Marisa estava com um sorriso cintilante estampado na face, parecia modelo de creme dental, era notória a sua alegria, que só se renovou com mais uma trepada arrasadora em cima da mesa de sinuca.
Assim eles seguiram por longos dias, sempre em cima da mesa de sinuca. Marisa fez questão de comprar lingeries para cada dia de transa, Tyson seguiu com o  taco afiado, encaçapou diversas bolas até o término da obra.
Hoje a sala de jogos está pronta, os amigos bebem e se divertem com o belo lugar que foi criado. Marisa sempre sorri quando olha para a mesa, além de lembrar até hoje com felicidade das tacadas dadas por Tyson.
Depois dessa obra, Tyson tomou gosto pela sinuca, que antes nunca havia lhe atraído. Sua esposa Janaína não entende até hoje por qual motivo, da noite para o dia, seu marido passou a perder horas e horas do dia no bar do Xexéu, jogando sinuca e ouvindo Cartola.

Bruno Rico.

Aguarde pelos novos capítulos, pois os canalhas da Mangueira possuem muitas histórias pra contar. 

Novo projeto: Os canalhas da Mangueira - Apresentação.

Comprovando a minha versatilidade, apresento meu novo projeto, a série de contos Os canalhas da Mangueira.



APRESENTAÇÃO.  

Mangueira teu cenário é uma beleza, que a natureza criou...

Quatro amigos, com personalidades e vidas diferentes, unidos por duas grandes paixões: Estação Primeira de Mangueira e mulheres, muitas mulheres!
Esse grupo de bambas é formado por Humberto (Beto), Jardel (Tyson), Emílio e Renato.
Um negro e um branco do morro; um negro e um branco do asfalto. Essa é a família.
Beto e Tyson são nascidos e criados no próprio morro da Mangueira, e lá residem até hoje. Já Emílio e Renato são cria do asfalto. Emílio mora na Rua do Riachuelo na Lapa, berço da grande boemia carioca; enquanto Renato é o mauricinho do grupo, é cria de condomínio e hoje mora na Barra da Tijuca.
Mas apesar das diferenças, todos se entendem muito bem e formam uma grande irmandade.
Toda essa união começou através da bateria da verde e rosa. Beto e Tyson já eram amigos de longa data, se conheceram ainda pequenos, na Mangueira do amanhã, e já adolescentes passaram a representar a Estação Primeira na avenida, e lá estão até hoje. Beto é um dos diretores da bateria, enquanto Tyson é peça fundamental no surdo um.
Mais tarde vieram Emílio e Renato, respectivamente. Emílio sempre foi mangueirense e realizou um sonho quando conseguiu tocar tamborim pela bateria da sua escola. Já Renato veio com outros propósitos, na época que entrou era estudante de música e trabalhava em um projeto para a faculdade; passado um ano, depois do projeto realizado, ele não conseguiu mais sair da bateria, a paixão falou mais alto e lá se vão onze anos desde o primeiro ronco na cuíca. E por falar em cuíca, apesar de ainda ser o seu instrumento preferido, Renato hoje não toca mais ela, depois de passar por tamborim e caixa, agora ele sossegou no repique. A respeito da cuíca ele fala: “É bom de tocar, mas dá muito trabalho, parece até mulher.”
E por falar em mulher...
Eis o principal motivo de tantas histórias, tantas aventuras, tantos risos e tantos choros. Esses sujeitos já aprontaram muito nessa vida por causa de rabo de saia!
Beto, Tyson, Emílio e Renato, podem divergir em diversas coisas nessa vida, mas em uma coisa eles concordam plenamente: todos conseguem amar várias mulheres ao mesmo tempo, e amar de verdade! A respeito disso, o poeta Renato diz o seguinte: “É melhor estar com várias e amar cada uma com a intensidade devida, do que estar apenas com uma e fazer com que ela sinta falta de algo.” Todos os demais concordam plenamente com isto, ou melhor, todos possuem isto como filosofia de vida. Coisa de canalha? Sim, coisa de canalha da Mangueira.
Depois de sobreviver a uma facada na barriga, dada por um marido corno que pegou sua mulher com a boca na botija em plena Marquês de Sapucaí, Beto disse ainda no hospital: “Amigos, a nossa história daria um livro ou um filme, essa porra não pode passar batido.”
E assim nasceu a série de contos Os canalhas da Mangueira.


Os canalhas da Mangueira.
Capítulo 1 – A mulher do campeão.
Este conto possui pitadas – senão o saleiro todo – de machismo, sexo, samba e amizade.

Mangueira teu cenário é uma beleza, que a natureza criou...

Mais um dia de samba na quadra da verde e rosa. A noite está bonita e o Palácio do samba está lotado.
Tyson já está afinando seu surdo; Renato já está com seu talabarte personalizado na mão, enquanto seu repique repousa no chão. Emílio também está ansioso, chega ta com a mão coçando pra maltratar o couro do seu tamborim.
Beto analisa tudo atentamente, diretor precisa estar atento a tudo, tem ritmista que é folgado, só toca quando quer, ainda mais hoje que é final de disputa de samba. A bateria está dividia entre três sambas, e cada um puxa a sardinha pro seu lado, e com Beto não será diferente.
Beto e seus amigos estão apoiando o samba do Almir bombeiro, compositor antigo da Mangueira, mas que nunca ganhou nada. Só que esse ano ele veio forte, meteu um samba bom, colou com apoios fortes, fechou com polícia, fechou com bandido, até o Renato entrou com dinheiro, e os canalhas prometeram tocar como se estivessem passando em frente aos jurados na avenida, na hora que esse samba começar.
Cada um apóia o samba por um motivo. Tyson acha que é o melhor samba, Renato entrou com uma grana por trás dos panos, e irá lucrar se o samba vencer, Emílio está apoiando, pois é amigo de um dos compositores, e Beto está na torcida do samba pelo simples fato de estar comendo a esposa do Almir bombeiro, ele diz que corno feliz dá menos trabalho.
- E aí Beto, já viu o Almir cornão por aí? – pergunta o sarcástico Tyson.
- Porra, negão, não vi não, mas a piranha da Beth está bem ali no camarote, olhando toda hora pra minha cara.
- Essa mina é sinistra, né, o que ela tem de gostosa ela tem de cínica.
- Nem fala Tyson, e o olhar dela é foda, mexe comigo, me desconcentra, e isso não pode acontecer, mas parece que quanto mais a mulher é piranha mais ela mexe comigo.
- Porra, Beto, tu vem falar isso logo pra mim? – Tyson solta uma sonora gargalhada – Tu gosta de perigo, meu parceiro, tu é daqueles que sobe em cima da moto e pilota sem capacete a duzentos por hora em plena Avenida Brasil, adrenalina é contigo mesmo, um dia tu ainda morre dessa porra.
- Olha quem fala, né, Tyson. Mas não posso dar mole não, minha mulher ta sempre na cola, ela ta bem aqui do lado e também não tira o olho de mim, e o pior que as duas são amigas ainda.
- É, a Lucinha é sinistra também, mas mulher tem dessas paradas, né, acaba simpatizando com a mulher que a gente come.
- Sócios precisam caminhar juntos, meu parceiro, senão a firma não anda.
Almir bombeiro era um quebrador nato, já havia mandado dois pra vala por conta da esposa Beth, e todos na Mangueira sabiam disso, inclusive o Beto, mas ele parecia não se importar, pelo contrário, essa sensação de perigo o instigava mais ainda.
Emílio era o mais preocupado, ele sempre foi o mais centrado do grupo, sempre foi o cara de puxar o freio quando a rapaziada estava mais pra frente que o futuro, e algo o preocupava muito naquela noite.
- Passa a visão meu parceiro, ta com cara de preocupado, que ta pegando?
- Porra, Tyson, to preocupado com o Beto, a Beth não para de olhar pra ele, a Lucinha também ta olhando pra ele direto, e daqui a pouco o Almir chega aí, a quadra vai ficar pequena, essa porra vai dar merda.
- Fica tranquilo, meu parceiro, estava trocando uma ideia com o Beto agora e ele já está ligado que o campo está minado, mas tu sabe como ele é, gosta de perigo.
- Eu sei irmão, mas tu lembra que a piranha da Beth falou pra ele que se o samba do marido dela ganhar, ela vai comemorar dando pro Beto aqui dentro da quadra, dentro de uma dessas salas aí. Tu acha que essa parada vai dar bom?
- É perigoso, mas não vai dar ruim não, o Beto já fez coisa pior. Qualquer coisa a gente dá cobertura, tu sabe que pra quebrar um vai ter que quebrar os quatro, né?
- Tô ligado.
- Então, meu mano, fica tranquilo, relaxa, hoje a noite é especial, cheio de mulher na quadra, o bagulho ta florido. Por falar nisso, na hora do intervalo dos sambas vou ali dar um cheiro na minha preta.
Tyson é o mais ciumento do grupo, não pode ver ninguém olhando pra sua esposa Janaína, que já fica puto e quer partir pra briga. Só que é complicado controlar os olhares dos marmanjos, Janaína é uma das principais passistas da escola, é uma preta de 1,80 de altura, curvas perigosas, sorriso encantador, cabelo esvoaçante e um gingado diferenciado. Todos esses atributos já deram muita dor de cabeça pra ele, que não tem dedos pra contar quantas foram as vezes que seus parceiros lhe seguraram para que ele não entrasse em uma briga.
Tyson é um cara que intimida, um negão com porte de estivador, cara de poucos amigos e instinto explosivo, como não é muito bom no diálogo, tem o punho como arma e sempre usou disso desde criança. Apesar do apelido e do estilo briguento, Jardel não ganhou seu apelido dentro do ringue, ganhou no morro mesmo, ainda bem jovem, quando em uma briga com um vizinho, mordeu a orelha do sujeito e cuspiu um pedaço no chão, daquele dia em diante ninguém mais lembra que seu nome é Jardel, e ao contrário da maioria das pessoas que tem apelido, ele gosta muito do seu, diz que impõe respeito, as pessoas acham que ele é mestre de boxe.
Depois de algumas Brahmas, Beto começa a se organizar para começar os trabalhos, hoje ele irá comandar a bateria durante a maior parte do tempo, o mestre Birão só assumirá a batuta na hora de tocar o samba campeão.
A final de hoje conta com quatro sambas, e o do Almir bombeiro será o terceiro.
Depois de tocar os dois primeiros sambas, é chegada a hora do intervalo. Tyson bebe duas garrafas d’água em sequência, para repor os líquidos, pois pra tocar o surdão do jeito que ele toca tem que ter disposição e estar muito bem hidratado. Enquanto isso Janaína samba brilhantemente na quadra, vigiada pelos olhares atentos do marido, que resolve ficar conversando com os amigos.
- Deixa ela lá Tyson, é o momento dela, depois tu fala com a tua mulher, vamos tomar um gelo. – diz Renato.
Todas as esposas dos canalhas estão na quadra hoje, com exceção da anti-social Silvia, esposa do Renato, que não gosta de samba e não faz a mínina questão de pisar na Mangueira. Melhor para ele.
Emílio é o único solteiro do grupo, a boemia da Lapa não lhe permite casar, é inviável. E ele está bem assim. E por falar em Lapa, o apartamento do Emílio é o quartel general do grupo, afinal, ele é o único solteiro, mora sozinho e a galera do morro não tem grana pra ficar gastando em motel toda hora, aí já viu, né, sobra pro Emílio, que até recebe uma ajuda de custo dos amigos, por causa disso.
 Apesar de solteiro, Emílio está com duas mulheres na quadra hoje, uma ele já esperava que fosse vir, a outra não, e por isso ele está se esquivando, pois quer evitar ao máximo que uma veja a outra, pra não sair faísca e a situação ficar ruim pra ele.
- E a mulherada Emílio, vai falar com elas não? – pergunta Renato.
- Tá maculo? Sem chance. Uma não sabe da outra, não posso dar esse mole de falar com uma e não falar com a outra, tenho que ficar no sapatinho.
- Sei como é, hoje eu to tranquilo, a Diana ta trabalhando, e eu to gostando da mina, hoje vou ficar de boa.
- Tá apaixonado, meu parceiro? – pergunta Emílio, com um olhar de surpresa.
- Você sabe que me apaixono por todas as mulheres que saio, sem paixão não se faz nada nessa vida, e eu to apaixonado mesmo, aquela mina fode como se o dia fosse acabar amanhã, isso me enlouquece.
Diana, a mulher de que falavam, é uma policial que Renato conheceu há dois meses na quadra da Mangueira. Os amigos brincavam dizendo que era bom ele se comportar com ela, e na dúvida era bom dormir de colete, pois a mina era dedo nervoso, já havia atirado até no ex-marido.
Todos os canalhas gostavam de mulheres com personalidade forte, isso os fascinava, mas apesar de todos gostarem desse estilo, uma coisa sempre ficou bem clara em todos esses anos de amizade: ninguém nunca ficava com a mulher que o outro já havia ficado. Isso é um lema, e apesar de algumas paixonites avulsas pelas mesmas mulheres, esse lema sempre foi respeitado até hoje, é um marco da amizade entre os quatro, e eles se orgulhavam muito disso, pois até um bom canalha preza por sua ética.
Ah, mas havia uma ressalva nessa cláusula. Eles não podiam se relacionar separadamente da mesma mulher, mas se essa mulher topasse se relacionar com eles ao mesmo tempo, no mesmo lugar, na famosa surubinha, aí eram outros quinhentos. O apartamento de Emílio que o diga.
É chegada a hora do samba do Almir bombeiro, a rapaziada se prepara pra tocar com mais afinco do que antes.
Ao final de tudo, o samba causa um grande alvoroço na quadra e alguns chegam a gritar o famoso “é campeão”.
Os canalhas não conseguem esconder a animação, tanto é que tocaram o samba seguinte como se estivessem doentes, Tyson chegou até a errar a marcação de propósito.
Depois de todos os sambas tocados, agora é a hora da verdade. Os canalhas estão reunidos para ouvir o resultado, Almir bombeiro segura a esposa com a mão direita, enquanto na esquerda agarra uma medalhinha de Santa Bárbara, a padroeira dos bombeiros.
Missão cumprida com êxito! Os canalhas comemoram, o samba do Almir foi campeão. Tyson joga cerveja pro alto, Renato sorri orgulhoso, Emílio abraça Beto que só consegue lembrar na promessa feita pela Beth.
Com o dia já clareando, Almir bombeiro ainda comemora, e como Beto imaginava, o cornão campeão nem dá falta da mulher, que transa alucinadamente com ele em um salinha escondida na quadra.
Renato, Tyson e Emílio, permanecem na quadra, estão preparados caso algo de errado. Mas o santo dos canalhas é forte, e mais uma vez tudo sai perfeitamente bem. Mais um Estandarte de Ouro para eles.
Beth surge na quadra com um sorriso de orelha a orelha, não conseguiu disfarçar a satisfação, afinal de contas, o samba do seu marido era o campeão. Mais tarde aparece Beto, com cara de sério e cansado, pra disfarçar.
Depois de ver que estava tudo bem, os canalhas partiram para suas casas.
Tyson finalmente pegou sua passista nos braços. Emílio saiu de fininho sem que suas mulheres percebessem que ele estava no pinote, melhor dormir sozinho e inventar uma desculpa depois, do que correr o risco de perder as duas e ainda tomar umas porradas. Renato foi embora pensando em sua policial Diana. E Beto subiu o morro abraçado com sua esposa. O pôr do sol segue ao fundo do morro, mostrando que um belo dia está por vir.

Bruno Rico.


Aguarde pelos novos capítulos, pois os canalhas da Mangueira possuem muitas histórias pra contar. 

Salvo pela matriarca.



Cadê o pai?
Não tem.
Cadê o abraço?
Não vem.
Cadê o conselho?
Ele não deu.
Cadê a referência do homem?
Se perdeu.

Assim fundiu-se o desespero
criado pelo algoz
que me gerou,
mas não me criou,
pelo contrário,
abortou-me no mundo.
A sorte é que o meu mundo
se fez nos braços dela,
a guerreira da aquarela incolor,
aquela matriarca
que acolheu o que sobrou.
Sobrou dos sentimentos dele.
Não! Não existem sentimentos,
retire o que disse,
que nem ele me retirou do seu rumo.
Mas tranquilize-se,
pois por mais que tentassem,
ninguém me tirou o prumo.

Certo dia acordei
no meio do pesadelo da vida:
gritei, esmurrei o ar,
fiz minha alma se desbotar,
meu coração gelar,
tentava me salvar,
mas me afogava na
angústia de não me acostumar.

Mas novamente ela veio para me resgatar,
me valorizar, me mimar,
me fazer entender que homem
de verdade não destrói um lar.

E hoje eu reflito apenas o brilho
do espelho da pessoa
que só nasceu para me amar.
Se não fosse ela,
eu não iria me salvar.

Bruno Rico.


“Daria um filme... Uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço, veja, olha outra vez o rosto na multidão, a multidão é um monstro sem rosto e coração...
...Família brasileira, dois contra o mundo, mãe solteira de um promissor vagabundo. Luz, câmera e ação, gravando, a cena vai, o bastardo, mais um filho pardo sem pai.”


Essa vai para a mulher que me fez ser um homem de verdade, hoje tudo é por ela! 

É dia de falar de segregação racial, mas por outra ótica.



O meu texto de hoje envolve um relato bem pessoal, que ocorreu há pouco mais de um ano, no dia 20 de junho de 2013, para ser mais exato.
Era época do ápice das manifestações no Brasil, o país estava em plena ebulição, era papo de gigante acordou pra cá, gigante acordou pra lá, e por conta disso muitas pessoas se animaram e resolveram ir para as ruas.
Pra quem não se recorda, esse dia 20 de junho foi o dia em que a Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro, ficou totalmente tomada por manifestantes, que na verdade nem eram tão manifestantes assim, pois a grande maioria que ali estava nem sabia o porquê de estar ali.
Mas também existiam pessoas com propósitos, grupos organizados em prol de algo que eles realmente acreditavam, e por conta de um desses grupos é que eu me animei e também resolvi ir, afinal de contas, eu não queria ficar vagando pela rua sem ter pelo o que gritar e sem ter pessoas que compartilhassem do mesmo sentimento, eu não queria ir para uma manifestação para ser um mero espectador, queria me manifestar de fato, e foi isso que tentei fazer, só que infelizmente não deu. E é aí que surge o meu relato traumático, que por algum motivo eu fiz questão de guardar até hoje comigo, só que conversando com alguns amigos sobre esse fato, eu percebi que precisava escrever algo mais aprofundado sobre isso tudo, até porque eu vi e ainda vejo algumas coisas na internet acerca desse assunto, e fico sempre incomodado com algumas abordagens, então por que não escrever a minha própria abordagem com base em uma experiência real que eu vivi?
Já adiantando o assunto, o meu relato envolve segregação racial e racismo, mas não é aquele racismo clássico e histórico de branco contra negro, não, não é sobre este racismo que eu vou escrever. Quero falar exatamente do contrário, do racismo do negro contra o branco, racismo que vi de perto, e mesmo sendo um homem negro, eu fiquei profundamente incomodado com tudo que vivenciei, afinal de contas, se todos nós queremos ser vistos como seres humanos, temos que ter atitudes humanas, e foi isso que fez com que eu me sensibilizasse com o outro, independente de cor, pois se eu sou uma pessoa que luta contra o racismo, eu não posso me levantar apenas quando o branco insultar o negro, quando o contrário ocorrer eu também devo me levantar, senão eu serei um hipócrita e jamais poderei levantar bandeira contra o racismo.
Esse tema de racismo do negro contra o branco é bem polêmico, e talvez por isso muitas pessoas fujam de escrever sobre esse assunto, mas eu estou tranquilo quanto a isso, até porque já estou acostumado com algumas polêmicas que meus textos levantam, e independente de qualquer coisa, eu estou embasado em argumentos reais, então eu não tenho o porquê de ter receito ao escrever sobre isso, e pra falar a verdade eu até gosto de escrever sobre coisas que a maioria gosta de ocultar, acho que possuo certo fascínio em tirar o ser humano da sua zona de conforto.
Talvez se esse texto estivesse sendo escrito por um branco, os negros poderiam torcer o nariz, mas como é escrito por um negro, eu lhe garanto que alguns negros também irão torcer o nariz. Certamente surgirão algumas falácias. Citarei as mais clássicas: “Mas o negro sempre foi o mais racista de todos”; “O negro é racista com ele mesmo”; “O negro adora se vitimizar”. Não! Eu não concordo com nenhuma destas aspas que acabei de citar, e antes de expor o meu relato eu gostaria que isso ficasse bem claro na sua mente. OK? Então OK! Vamos ao relato:
Como no meu facebook eu tenho muitos conhecidos de movimentos sociais e movimentos negros, eu vi que um grupo de negros estava se movimentado para ir a essa manifestação do dia 20. eles criaram um grupo e por lá estavam se organizando. Como eu queria ir para a manifestação, mas não tinha um propósito muito definido do que iria reivindicar, achei bem interessante a ideia de ir com o movimento negro, até porque a causa era nobre, pelo grupo eles diziam que a causa principal era o fim do extermínio do povo negro, e eu me animei com isso, nunca tinha participado de nada parecido, era um momento único, estava de folga no trabalho, aquela tinha tudo para ser a maior e melhor manifestação do Rio de Janeiro, tudo estava culminado para que eu fosse, e por fim eu confirmei a minha presença e fui.
Minha companheira também se animou de ir comigo (ela sempre está comigo para o que der e vier), eu fui de casa e ela foi do trabalho, que era no Centro mesmo.
Assim que entrei no metrô eu fiz questão de ligar para o cara que conhecia e que havia me convidado, mas eu só conhecia por internet mesmo, até aquele momento não havia visto ninguém pessoalmente, todos eram absolutos estranhos até então.
O pessoal ficou reunido na porta da igreja da Candelária, lugar onde ocorreu a famigerada chacina da Candelária, onde menores de rua foram brutalmente assassinados na calada da noite por policias. Achei um lugar ótimo para se reunir em prol da nossa causa, e de fato era o melhor lugar para isso.
Chegando lá, ainda de dia, falei com o contato que eu tinha e vi um total de uns 35 negros. As mulheres estavam colocando os seus turbantes, alguns vestiam adornos africanos, a maioria escrevia frases em seus cartazes, e eu fiquei de pé, atento a tudo, como bom observador que sou.
Algum tempo depois a minha companheira chegou, estava animada, assim como eu também estava, pois até ali tudo estava lindo, vários cartazes com frases do Malcolm, do Martin, frases de afirmações negras, diversas pessoas parando para tirar foto; até ali eu não tinha o que falar de mau.
Eu havia levado duas cartolinas de casa, e lá nos animamos de escrever algo, eu pensei em diversas frases, mas só três viraram cartaz: “Uns preferem morrer ao ver um preto vencer” do rapper Criolo, “Cada negro que for, mais um negro virá, para lutar com sangue ou não” do mestre Wilson Simonal, estas duas estavam em frente e verso no mesmo cartaz, e em outro cartaz estava escrito “Vi um pretinho, seu caderno era um fuzil” dos Racionais Mc’s, pronto! Estávamos munidos com nossas armas para quando a manifestação começasse a andar.
Só que antes da saída da manifestação, os negros deram as mãos, fizeram uma rodinha e começaram a discursar, e foi a partir dali que começou todo o meu desapontamento.
O lugar que a gente estava acabou chamando bastante atenção, afinal de contas era o único local onde os negros estavam reunidos, as pessoas (brancas e não brancas) paravam para olhar, vi diversos brancos parando com olhar de admiração. Eu como exímio observador, reparei diversos deles falando “Caramba, que maneiro, os negros reunidos em prol da sua causa”, “Que legal esses cartazes, a luta deles, que bonito isso”, enfim, eu consegui perceber diversos elogios, e deu pra ver que era algo sincero, a maioria dos brancos que estavam em volta realmente apoiavam o que estava acontecendo, mas na hora do discurso feito pelos meus irmãos de cor, esses irmãos brancos começaram a ser discriminados.
Teve uma hora que um manifestante branco passou e gritou “Estamos juntos!”, e uma irmã de cor prontamente gritou “Estamos juntos, mas não estamos misturados”, eu não sei se o cara ouviu, mas a resposta foi pra ele, só sei que eu ouvi e não gostei.
Depois disso, percebi um desentendimento entre dois negros do meu grupo, eles gritavam um com o outro, tinha até uma mulher segurando um deles. Mesmo sem saber o motivo da briga eu achei aquilo muito feio, se tinham diferenças, que não a tirassem em público, muito menos ali, muito menos naquele momento e naquele local, pois aquilo era assunto certo para as pessoas que não apóiam nossa luta; certamente diriam: “Olha lá os pretos, depois querem falar de união, não podem se reunir que dá merda”.
Depois que vi qual era o motivo da briga, achei tudo mais estúpido ainda, é que na hora que nos negros deram as mãos, a gente ia cantar o hino nacional, foi quando um saiu da roda e depois disse aos berros: “Eu não canto o hino nacional! Não adianta, eu não canto, só canto hino africano”. Beleza, então a gente estava ali, em um movimento nacionalista, e o cara queria exigir que eu cantasse um hino africano? Putz, que idiota! Foi exatamente isso que eu disse pra minha companheira naquela hora.
Depois dessa confusão alguns negros discursaram, a maioria foi racista com os brancos, repetiam a frase “Estamos juntos, mas não estamos misturados”, falavam dos brancos da mesma forma que os negros rebeldes norte-americanos falam dos brancos em 1900. Eles apenas se esqueciam que naquela época o negro era pendurado e enforcado em poste, o bebedouro era separado, banheiro era separado, a grande Rosa Lee Parks se recusou a levantar-se de um assento no ônibus, pois os lugares eram separados, enfim, o que não faltava era meio para se praticar o racismo, e eu estou longe de dizer que o racismo acabou ou que ele não existe aqui no Brasil. Só que é preciso se adequar aos momentos, não podemos usar armas iguais em guerras diferentes, antes se usava a catapulta, hoje existe o míssil Tomahawk; deu pra notar a diferença?
O mais triste foi ver que alguns negros queriam discursar embasados na filosofia do grande Malcolm X, que foi um negro extremista sim, que foi racista com o branco sim, só que em outra época, quando esse extremismo era um instrumento de autodefesa do negro, sem contar que o grande Malcolm sofria grande influência do seu mentor Elijah Muhammad. Tanto é que depois de ir à Meca e ver que lá existiam muçulmanos de cor branca, Malcolm saiu da nação do Islã que seguia e foi percorrer o seu caminho sozinho, e a partir daí ele se desvencilhou do pensamento que o homem branco só poderia ser seu inimigo, e passou a vê-lo como ser humano, como uma pessoa que poderia ajudar na sua causa. E ele viu que o irmão negro também poderia ser seu inimigo, dependendo do interesse que estivesse envolvido, e até mesmo por isso, até hoje existem rumores que Elijah Muhammad foi o mandante do assassinato de Malcolm, justamente por não ter aceitado tamanhas mudanças dele.
É por isso que eu sempre digo que é preciso ter base e conhecimento no que se diz, ainda mais se você estiver dizendo que está falando em cima da filosofia de outra pessoa, pois é preciso conhecer bem a história dessa pessoa, conhecer a história completa, e não somente uma parte que lhe é conveniente.
Ali naquele dia 20, o ideal seria que aqueles negros usassem o discurso do ativista jamaicano Marcus Garvey, que defendia que todos os negros deveriam voltar para a África, e mesmo assim ele salientava: "Eu não tenho nenhum desejo de levar todas as pessoas negras de volta para a África, há negros que não são bons elementos aqui e provavelmente não o serão lá."
No discurso dos negros eu ouvi coisas sensatas sim, algumas pessoas chegaram e falaram sem precisar usar de racismo, mas a grande maioria foi muito racista com os brancos, que até aquele momento tiravam fotos, acompanhavam tudo atentamente, apoiavam o que era dito, só que depois eles começaram a se dissipar, e com toda a razão, pois ninguém é obrigado a ficar em um lugar onde falam que você é o mal, se você está ali para ajudar, ninguém está dentro do coração do outro para julgar intenções, e foi por isso que eu achei tudo aquilo muito errado, sem falar que descredencia a luta do negro, pois o oprimido acaba usando as mesas armas do opressor, e isso não o torna diferente, muito pelo contrário.
Aquilo tudo havia me incomodado tão profundamente que eu cheguei a tentar discursar também, precisava dar a minha opinião, só que a minha companheira me segurou, falou que não iria adiantar. E no final eu acho que ela estava certa, pois se eu chegasse na roda para falar praticamente tudo ao contrário do que estava sendo dito até então, outra briga poderia ocorrer.
Depois dos discursos, mesmo estando totalmente desanimado, e minha companheira compartilhava do mesmo sentimento, a manifestação enfim saiu e nós decidimos permanecer com o grupo, pelo menos por enquanto, mas aí eles começaram a cantar “Eu sou africano, com muito orgulho, com muito amor”, e aquilo começou a soar estranho, as pessoas nos olhavam com estranheza, o que era normal, afinal de contas, naquele dia nós estávamos em um movimento nacionalista, mesmo eu não sendo um grande patriota, eu entendi que ali estavam brasileiros lutando por melhorias, se iria surtir efeito ou não, isso é uma outra questão, mas ali estavam as pessoas que queriam gritar por algo, e aquela imagem com um monte de negros gritando que era africano, no meio de um movimento nacionalista, não soou legal.
A África é um lugar lindo de pessoas lindas, lugar este que espero conhecer antes de morrer, é um sonho que tenho, mas eu sou brasileiro, querendo ou não eu nasci aqui, e aqui também existe cultura negra, os negros já fizeram história aqui, já deram sua essência ao país, e eu sinceramente acho que é isso que deve ser valorizado, a cultura nacional do negro, tudo que ele fez e ainda faz por esse país, que ainda insiste em não valorizá-lo da maneira correta, e é isso que tem de ser gritado, pois somos negros, somos brasileiros, ajudamos a construir essa nação e temos que ser valorizados e respeitados por isso!
Agora, se um negro não se sente a vontade aqui e quer ir morar na África, é só juntar um dinheiro, comprar a passagem e ir ser feliz por lá, simples assim; existem bangalôs lindos por lá.
O texto ficou bem grande, eu sei disso, a maioria vai ficar com preguiça de ler, se você chegou até aqui, parabéns! Pelo visto o assunto te interessou bastante, e isso é bom, pois eu acho que esse tema precisa ser bem mais discutido do que é.
Peço perdão pelas linhas longas, mas não adianta, eu não consigo ser sucinto nesses casos, até porque eu preciso dessas linhas para me fazer entendido por completo, e mesmo assim tenho certeza que vai ter gente sem entender o que eu realmente quis dizer e outras tantas discordando do que eu disse. Mas não escrevi para ganhar aprovação de nada, escrevi para abrir os olhos de alguns irmãos negros, e tentar fazer com que eles entendam que se nós negros queremos que o branco nos veja como iguais, precisamos agir da mesma forma, a história nos mostra que a segregação só levou o mundo para o buraco com suas guerras insanas.
E por não concordar com tudo isso é que eu resolvi escrever esse texto, apenas por isso.

“Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam.”
“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.”

* Frases ditas pelo grande mestre Martin Luther King Jr.

Contrações e arrepios.



Um sorriso lindo
é a junção de todos os músculos da face
em uma única contração.

Um amor lindo
é a junção de todos os pelos do corpo
em um único arrepio.

Uma dica:
colecione amores e sorrisos.

Outra dica:
valorize os amores que lhe fazem sorrir,
pois um dia sem sorriso é um dia sem vida,
e uma vida sem amor é uma vida sem sorriso.


Bruno Rico.