Baú de criança.


Eis a solução para minha inquietante aflição:
Abrirei meu baú de estimação.

Quando criança o guardei
Com ternura, prometi somente
Abri-lo quando fosse um grande homem
Tomado por bravura.
Confesso que não sou o herói
Que esperava ser quando não tinha herói algum,
Hoje sou apenas mais um;
Um ser com medo e cheio de segredos.

Em meu pequeno baú
Guardei meus grandes pesadelos;
Só os guardei porque não queria
Carregá-los comigo,
Mas nem todos couberam no fundo,
Alguns insistiram em me acompanhar pelo mundo
E sem ter onde guardá-los
Convivi com eles, e por eles mudei o meu rumo.

Hoje vejo que me tornei um medroso.
Cresci e virei moço,
Mas em meu rosto,
Já calejado pelo tempo,
Só carrego desgosto.

Antes não tivesse criado tal baú.
Antes não tivesse guardado
Meus medos em uma caixa de madeira.
Antes tivesse enfrentado todas essas besteiras.

Eu sei que nunca é tarde para se encorajar,
Mas também nunca é cedo para se perder o medo.

Irei abrir de uma vez por todas
O meu baú de criança,
Só assim serei de uma vez por todas
Livre das minhas velhas e impiedosas lembranças.

Afinal, pra que guardar o que não presta?

BrunoricO.

Sapiência infantil.

Ao cair ele se levantou.
Pobre criança!
Fora ensinado a cair e levantar-se,
E com humildade aprendera a lição.

O tempo passou...

E ao cair ele ficou no chão.
Pobre adulto!
Fora ensinado a cair e levantar-se,
Mas perdera a humildade
E esquecera a lição.

BrunoricO.

Conselhos de um eremita.


Não dependas
Da junção para
Completar o uno.
Seja completo em si
E para si.
Não espere complementos externos,
Para completar o seu interno ser.

Não sinta falta das pessoas
Que não irá conhecer.
Sinta-se preenchido por se conhecer
E lisonjeado por em equilíbrio viver.

Desprenda-se do exterior.
Quem muito varre do lado de fora
Esquece-se do lado de dentro
E na imundice padece.

Pegue para si o que de fato necessite.
Não se apegue ao
Material terreno
Que não possuir sucursal divina.

Você é o elo
Entre os seus mundos.
Só você possui a chave dos seus medos,
Desejos, aflições e inquietações.
Só você possui o poder
De ponderar-se consigo mesmo.
E ninguém poderá se apoderar
De seus poderes
Enquanto no eremitério viver.
Ninguém roubará
Seus sonhos na solidão.

Se quiseres viver a somar
Divida-se em dois
E terás um em um.
Terás a plena harmonia
No ser e no ter,
E jamais dependerá
Da incerteza de um outro ser
Para a felicidade conhecer.

Se quiseres viver a dividir
Ganhe o mundo
E nele faça morada.
Pois o mundo o usurpará por completo,
E em mil pedaços lhe dividirá.
E desses mil nenhum será seu.


BrunoricO.

Pedras de sal.


Caminho pelas pedras de sal
Que me levam rumo ao gigante
Verde deslumbrante
Que se quebra em ondas quando
O limite de seu bailado chega ao fim.

No chão de salinas,
Rodamoinhos formam
A valsa das águas
Que faz dançar involuntariamente
O corpo que antes sequer sorria.

Ao deleitar a imensidão do mar
Deito sobre as pedras de sal
E viajo como criança,
E sonho sonhos de esperança
Em pensamentos coloridos,
Que se distanciam das desventuras
E da falta de cor que estão a assolar
Meus dias sem vida.


BrunoricO.

Meu jardim.


Regarei meu jardim
Para ter flores pela manhã,
Sorrisos pela tarde
E quiçá um amor para noite.

Se tal amor vier,
Serei eternamente grato as flores,
E para o novo amor darei as mesmas flores
Que por mim foram plantadas e regadas.

Sendo assim, estarei eu em forma
De flor nas mãos do meu amor.
E se um dia eu vier a murchar de carência
A culpa será da dona da flor,
Que um dia eu ousei chamar de amor.


BrunoricO.