Nas cinzas de uma quarta-feira.


As serpentinas
Já não bailam pelo ar.
Os confetes ainda colorem
O chão que fora
Passarela da ilusão
Nos momentos
Em que o solitário
Se divertia na multidão. 

As ruas redescobrem o silêncio.
O silêncio redescobre
A sua existência.
A presença da ausência
Constrói a saudade
De uma festa
Já sem subsistência.

Nas cinzas
De uma quarta-feira
Esconde-se o folião
Exaurido de corpo
E desiludido de alma.

Folião agora carente,
Que lembra com
Melancolia dos amores
De um carnaval já ausente.

Diante do dissabor,
E com um vazio sem igual,
O folião conclui
Com uma lágrima no rosto
Que acabou o carnaval.

Bruno Rico.

MÚSICAS QUE ME FAZEM POETIZAR #1

Quando eu estou escrevendo poesia, eu curto fazer quase que um ritual para que o texto saia muito intenso e com a mensagem que eu desejo realmente passar naquele momento. E neste ritual existem duas coisas essências: noite, e música. Noite porque o poeta aqui é daqueles que se inspira com a lua, pois é na noite que eu me sinto a vontade para escrever, e é com o brilho das estrelas que a minha mente parece germinar inspiração.
E outro fator que me ajuda muito é a música, pois música me inspira, me acalma, me agita, me transporta e me guia. Eu me inspiro na rua, no trabalho, observando o cotidiano, refletindo sobre a minha vida, mas se tem uma coisa que mais me inspira é música, até porque existem diversas canções que são praticamente poesias cantadas, e são essas que eu mais gosto de ouvir quando estou em um processo criativo para escrever uma poesia, ou as vezes eu escrevo uma poesia em cima de alguma frase que ouvi em determinada música, com determinada palavra, ou seja, a música faz parte da minha essência poética, e por conta disso, a partir de hoje eu irei colocar aqui no meu blog canções de artistas que me inspiram profundamente, e estes artistas se encontram em diversos estilos musicais, como MPB, Rap, Sertanejo (de raiz, ou seja, o verdadeiro) e Samba.
Portanto, a partir de hoje está lançada no blog, a seção MÚSICAS QUE ME FAZEM POETIZAR, em homenagem aos artistas e as canções que tanto me inspiram.

E para começar com os trabalhos eu postarei uma música, ou melhor, uma poesia cantada, de um artista que eu acho fantástico, e que possui uma profundidade incrível em suas letras, e como infelizmente somos condicionados a engolir supostos artistas com hits do estilo "ai se eu te pego", verdadeiros artistas como este que irei postar hoje, acabam não sendo interessantes para a mídia e a para a população num geral, infelizmente. Mas aqui, no meu pequeno e humilde espaço, esse cara é rei.
Fiquem com a canção "Onde Deus possa me ouvir", do mineiro Vander Lee.



Letra:

Sabe o que eu queria agora, meu bem...?
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém.

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber

Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui pode sair.

Adeus...

Jesus mendigo.


Procuram-me nos templos e igrejas,
Mas nem sempre eu estou por lá,
Na maioria do tempo estou na rua,
Deitado, solitário e desmotivado
Com esse mundo totalmente desregrado.

A maioria dos mortais pensa que irei voltar,
Mas eu já voltei, e sequer fui notado.
Fiz questão de voltar com um aspecto castigado,
E de misturar-me com os enfermos de coração despedaçado.

Os abastados ignoram-me,
Quando não, tratam-me como os dejetos de suas latrinas.
Os pseudosreligiosos passam do meu lado,
Mas não me veem de verdade.
Depois dos mendigos, os únicos serem
Que conseguem notar a minha presença
São as crianças, que sempre me presenteiam com um sorriso.

Já os adultos estão podres,
São vazios por dentro e cheios por fora,
Cheios de si,
Cheios de razão,
Cheios de certezas,
Cheios de pecados,
E consequentemente
Cheios de sofrer,
Pois ainda não aprenderam
A essência do viver.

É tudo tão simples,
Meu pai é simples,
Eu sou simples,
A fé é simples,
O afamado amor é simples,
E a felicidade que tanto buscam é ainda mais simples.
Mas os mortais insistem
Em complicar o singelo,
E depois oram a mim
Como solução,
Como se houvesse razão.

A falta de humildade
Faz com que a humanidade não me veja realmente,
Mas eu estou aí, nas coisas simples,
Do seu lado, deitado na sua porta,
Tomando conta da sua casa,
Querendo a cada dia mais
Reger a sua vida com luz e harmonia,
Basta enxergar-me com verdade,
Basta vestir-se com os trapos da bondade
E despir-se dos finos panos da vaidade.

Não preocupe-se em me achar
Em uma religião,
Retire as poeiras mundanas de sua retina,
Veja que estou diante de ti, e terás o seu galardão.

Não celebre o meu nascimento
Apenas no Natal, chamando-me menino Jesus,
Pois todo dia eu renasço em baixo de uma marquise,
E lá, chamam-me de mendigo Jesus.

Bruno Rico.


“Digo aos orgulhosos: não sejais arrogantes; e aos ímpios: não levanteis a vossa força. Não levanteis altivamente a vossa força, nem faleis com insolência contra a Rocha.” Salmo 75, 5

“Não multipliqueis palavras orgulhosas, não saia da vossa boca linguagem arrogante, porque o Senhor é um Deus que tudo sabe; por ele são pesadas as ações.”  I Samuel 2,3

“Exterminarei o que em segredo caluniar seu próximo. Não suportarei homem arrogante e de coração vaidoso.” Salmos 100,5

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.”  I Coríntios 13,4


Bem, não sou religioso, confesso que sou um ser até de pouca fé, mas sinceramente eu acho que Deus me tocou de alguma forma para escrever esta poesia, pelo menos foi isso que senti, portanto aqui está ela, escrita por Ele, e não por mim, um reles mortal.